Não sei se me lês, leitor, mas me sinto compelido a desejar-te feliz ano novo. Assim: Feliz Ano Novo! Não se há de dar adeuses do tipo já-vai-tarde ao ano que termina, pois o coitado não foi nem bom nem mau – apenas fez o que tinha que fazer: passou dia após dia, mês após mês. Por outro lado, há que se saudar com grandes esperanças o ano que se inicia, pois ele é uma oportunidade. Não nos enganemos, porém: não é ele que vai resolver nossa vida. É nele que resolveremos nossa vida, dia após dia, mês após mês. Façamos, pois, nossa dieta e nossos exercícios; honremos o nosso trabalho; amemos as nossas esposas, maridos, namorados e namoradas; estudemos um pouco mais; sejamos pacientes para com todos e sobretudo para conosco mesmos. E nesse ponto, faço minhas as palavras de Rubem Braga, o mestre da crônica brasileira: “E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, às vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rolando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão”
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
domingo, 28 de dezembro de 2008
INSTRUÇÕES PARA ASSISTIR CINEMA PARADISO
Nada de pipoca nem de comidinhas. Cinema Paradiso exige atenção integral, que não pode ser dividida com mastigações impertinentes ou coisas semelhantes. É possível beber vinho, levemente resfriado. Mas só. Afaste os perguntadores profissionais, aqueles que ficam o tempo todo: “Ih, meu Deus, que será que vai acontecer?”, ou, “Quem é aquela mulher que apareceu agora?”. Esses podem assistir Duro de Matar. Na verdade, Cinema Paradiso é um filme para se ver só, ou a dois. Mas pode haver mais gente na sala, desde que aos espectadores seja permitido dizer apenas (e baixinho) “Oh” ou “Ah”, ou ainda suspirar. É preciso também desligar o telefone ou tirá-lo do gancho: você não vai querer ser incomodado, eu garanto. Luzes desligadas, por favor. Se você tiver um bom sistema de som, coloque-o em volume razoável, pois a trilha sonora foi composta no céu e só veio à terra com uma autorização expressa de Deus. Por fim, e talvez o mais importante: preste atenção no filme, tenha muito respeito por ele e por você mesmo, pois esta é uma experiência única, que só vai engrandecê-lo. Ao final você terá o direito, o justo direito de se congratular.
P.S.: Ainda sobre a trilha sonora. Se você tiver um carro com som e ar-condicionado, compre a trilha. Quando você coloca o CD e levanta os vidros, o mundo lá fora vira um filme. Tudo fica bonito: a criança correndo, o vento nos cabelos de uma mulher, o homem em silêncio. Mesmo um cachorro se coçando é uma experiência emocionante. E não estou brincando.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
A ORDEM NATURAL DAS COISAS
Chegará um tempo em que as mais tolas lembranças nos comoverão: a disposição das cadeiras na sala; a pintura da janela descascando; o mato crescendo no quintal; a rachadura na calçada; a sombra em diagonal na varanda; o nó da rede; o rangido da porta do quarto; a marca no braço do sofá; a sujeira embaixo do fogão; o emaranhado dos fios atrás do móvel; o som da chuva sobre as telhas; o filtro no canto da pia; os porta-retratos empoeirados... Quando nada mais disto existir, a não ser em nossas lembranças, esse será o tempo de se comover. Tal é a ordem natural das coisas. Esse será também o tempo em que a imagem que temos de nós mesmos já não existirá, a não ser em velhas fotografias. E, apesar de tudo, continuaremos a pensar em nós como aqueles conhecidos na foto, sorridentes e confiantes, pois não somos, não podemos ser jamais, os estranhos do outro lado do espelho, com rugas cada vez mais pronunciadas e cabelos cada vez mais brancos.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
SOBRE A TOLICE
Não, não é apropriado, eu sei. O espírito natalino não aconselha. A fraternidade entre os homens não recomenda. Mas não posso. Não, não posso deixar de falar do que às vezes – não sempre, mas às vezes – me angustia. A tolice. Já citei neste mesmo blog uma das frases de que mais gosto (Cheguei a citá-la no original.) É de Schiller: “Contra a tolice lutam os próprios deuses em vão.” A tolice me incomoda. Aliás, a inconsciência a respeito da própria tolice é que me incomoda. Sou tolo, e tenho consciência de que sou tolo durante a maior parte do tempo (às vezes tenho cinco minutos de brilhantismo, mas nunca há ninguém por perto para comprovar), e o que me angustia é precisamente isso – é que haja uma outra espécie de tolo, uma espécie absolutamente inconsciente de sua própria tolice, e mais: uma espécie que se orgulha da própria tolice, pois a toma por sabedoria. Temos aí, aliás, um índice seguro de determinação: a tolice e a arrogância andam juntas. Nelson Rodrigues já havia apontado, com palavras mais duras do que as minhas, que a ênfase, o gesto e o punho cerrado são as armas dos tolos.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
MEUS MAIS SINCEROS VOTOS
Caro leitor: que neste Natal e no ano que se inicia você seja você mesmo, e que sinta muito orgulho disso, pois não há nada mais saudável do que bastar-se. Evite curvar-se às convenções, e pelo contrário: lance bananas solenes para o que o povo pensa ou vai pensar de você. Por falar nisso, diga sempre o que está pensando, no momento em que pensar: não deixe para depois (pois não é a mesma coisa) nem guarde lá dentro (porque não vai lhe fazer bem). Não faça nada de que não goste (nem por educação), e faça quase tudo de que goste, pois desde que você não machuque ninguém, é lícito desejar o que lhe der na telha. Respeite os seus interesses, pois eles são a essência mesma do seu caráter, e respeite-se, pois no final você vai prestar contas apenas a você mesmo e a Deus, caso acredite nele. Divirta-se, quando quiser e puder se divertir, e seja responsável também, mas não demais, que não é você quem vai salvar o mundo da bancarrota. Não dê muita ousadia a ninguém, exceto a você mesmo (mas, paradoxalmente, questione-se de vez em quando, pois as nossas idéias às vezes entortam). Considere como a mais perfeita das filosofias, a mais prática e útil, aquela de que tive notícia outro dia na internet: a filosofia do cavalo na parada de 7 de setembro – andando, cagando e sendo aplaudido. Por fim, previna-se contra todos os conselhos clichês de Natal e de Ano-Novo, especialmente estes meus, que, embora honestos, não são novos: ou você já os ouviu de alguém e os pratica, ou, se não o faz, é bastante crescido para assumir responsabilidade por isso, e eu o aplaudo. São os meus mais sinceros votos.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
POR FALAR EM POEMAS
E por falar em poemas, tem um de que gosto muito. É um dos mais simples que já li, e um dos que mais me tocou. Aliás, é importante não confundir as palavras simples e simplório. Simplicidade é coisa elevadíssima, que pouca gente consegue. A maioria de nós só alcança o simplório, e olhe lá. Portanto, evite subestimar o poema. Não esqueça de que ele está escondido por trás das palavras, e que vai se revelar mais cedo ou mais tarde. Ah, o poema é de Mario Quintana, e se chama Trecho de Diário. Ei-lo.
Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá.
Numa determinada pedra em certa rua de Calcutá.
Solta. Sozinha. Quem repara nela?
Só eu, que nunca fui lá,
Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento...
Minha pedra de Calcutá!
POEMAS
Um poema não se explica – quem quiser que o entenda, ou melhor, que o sinta. Pois poema também não é para ser entendido. O poema tem efeito retardado (alguém já disse isso). Ele é uma bomba-relógio. Ele não explode agora, mas depois. Você lê o poema, acha bonito e tal. Só que às vezes ele não acontece para você naquele momento. Ele acontece depois. E aí você lembra: Caramba, o poema! Agora mesmo me aconteceu de aplicar à vida um verso do Drummond: “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus./Tempo de absoluta depuração.” O bom é que eu não preciso lhe explicar por que o apliquei à vida: a minha maneira de usar o poema talvez não interesse a você. Você tem ou certamente vai ter a sua própria aplicação para o verso. Pode inclusive acontecer de você, agora, não achar nada demais nele. Mas lhe dou um conselho: guarde-o bem na memória, pois vai chegar uma hora em que você vai usá-lo. E ainda vai dizer: Rapaz, o Drummond tinha razão! Quer outro verso pra guardar, com possível aplicação no futuro? Vai este, do Quintana: “A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil/Aonde viessem pousar os passarinhos!”
domingo, 21 de dezembro de 2008
MUNDO ANIMAL
Não sei se você gosta de ver aqueles documentários sobre o mundo animal. Eu gosto. Dia desses atinei para algo – alguma verdade até então escondida. Sempre que dois animais acasalam (sejam felinos, chipanzés ou tartarugas), tenho a impressão de que a fêmea está absolutamente entediada. O macho dá umas resfolegadas ridículas, faz uns muxoxos sem graça, e às vezes morde o pescoço da fêmea. Esta, por sua vez, costuma assumir duas atitudes: ou olha para o horizonte, com ar de supremo desprezo pelo que está acontecendo mais acima, ou então demonstra viva chateação, por ter que suportar aquele importuno, com bafo de onça, babando sobre suas costas. Não é assim em todos os casos, claro: os cavalos-marinhos namorando são uma beleza. Mas as cenas me fizeram atinar para alguma verdade. Só não sei qual.
sábado, 20 de dezembro de 2008
NATAL
O Natal é uma belíssima época. Para praticar penitência. É a época em que todos, conscientemente, escolhem sofrer e pagar seus pecados. Não há jejum ou privação que se lhe compare. Mas devo admitir: é também uma das épocas em que as pessoas mais entram em contato com Deus. Assim: “Ai, meu Deus, esqueci de comprar o presente de Fulano!” E lá vão elas correndo comprar o tal presente. E, no dia seguinte, lembram que esqueceram o presente de Sicrano. “Ai, meu Deus!”, e saem correndo de novo para comprar o presente. Tem também as quinhentas e cinqüenta confraternizações das quais as pessoas têm que participar (e, claro, não pode faltar o presentinho para o indefectível amigo secreto, de quem não se sabe se gosta de roupa, de livros ou de Cds). Estranho: esta era para ser, por excelência, a época da reflexão, da interiorização e da harmonia. Mas o fenômeno que se estabelece (evidentemente, não sou o primeiro a notar isso, nem a escrever sobre) é justamente o inverso. Vejo gente em peregrinação (a palavra é adequada) a dezenas de lojas, gente que está no último minuto para comprar os salgadinhos da confraternização da sexta-feira, gente que esqueceu de marcar o cabeleireiro, a manicure e a pedicure e agora se penitencia porque vai atrasar tudo, etc. Presentear as pessoas de quem se gosta é uma coisa boa, mas comprar dezenas de presentes para dar a todo mundo (“Ah, mas não são presentes, são só lembrancinhas”) é algo absurdo. Deixa de ser um prazer e vira um dever, e o que é pior: um dever cumprido às vezes de má vontade. Isso acontece não só em relação aos presentinhos, mas a quase todos os outros compromissos. O corre-corre é absoluto e inevitável. Todos estão atrasados para tudo. Mil coisas pendentes. Uma penitência, sem dúvida. Bem. Vai ver que isso é bom, faz bem à alma. Eu é que sou um bruto, um insensível. Quem já viu achar que um abraço e um simples voto de boas-festas têm o mesmo valor que presentes comprados com sacrifício e desprendimento?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DO CANADÁ?
O Canadá não está nem aí pra nada, e nem vem chegando. Minto. O Canadá só está preocupado com o que verdadeiramente interessa: o bem-estar de sua população. Os canadenses não se preocupam em ganhar copas do mundo e não dão a menor pelota para os primeiros lugares nas olimpíadas. Não conheço nenhum grande escritor canadense nem nenhum grande músico. Será que há grandes atores? Políticos carismáticos? Houve algum Stálin canadense? Um Lincoln? Certamente deve haver gente boa e importante lá, grandes autores, músicos etc. Eu inclusive duvidava (o que prova a minha ignorância) que algum canadense tivesse ganho o Nobel. Acabei de quebrar a cara: fiz uma busca no Google e descobri vários vencedores do prêmio. Mas isso não importa. Ou melhor: importa, sim. O que eu estou querendo dizer é que o Canadá é um país fundamentalmente discreto e, talvez por isso mesmo, eficiente. Os canadenses não aparecem em canto nenhum, nem pra nada. Veja a guerra contra o terror. Alguém ouviu um pio do Canadá sobre o assunto? Enviou tropas para o Iraque? E agora, com a crise econômica mundial, alguém ouviu dizer que o Canadá quebrou, ou que alguma grande empresa canadense esteja em dificuldades? Parece que está sempre tudo muito bem por lá, e que os canadenses não estão nem um pouco preocupados com o mundo. E isso deve ser verdade, pois se aparece alguma pesquisa sobre índices de desenvolvimento humano ou sobre expectativa e qualidade de vida, o Canadá está lá, entre os primeiros da lista. É isso o que interessa pra eles. Às favas as pompas do mundo. Ninguém chama o Canadá pra nada, e eles não querem mesmo ser convidados. Os canadenses não gostam de pirotecnia, de enfeite. Pra eles, o mundo é uma festa pobre. Melhor ficar em casa.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
MARES DO ORIENTE
E se você partisse para os mares do Oriente, como os personagens de Conrad? Você nunca leu Joseph Conrad? Quase ninguém leu, não se preocupe. Mas me diga: não lhe parece que a expressão “mares do Oriente” tem algo de misterioso? Não lhe parece que ela evoca uma outra espécie de vida, uma vida que não se parece em nada com a vida do comum dos mortais? Mas há perigos, sim. E muita tristeza. É uma vida dura. Mas não sei... talvez haja homens de verdade lá, nos mares do Oriente.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
DA MINHA ALIENAÇÃO
Antes eu tinha vergonha. Agora não tenho mais: não gosto de jornais, não gosto de política, não gosto de economia. Detesto politicagem e simplesmente ignoro (ou tento ignorar, pois nem sempre é possível) quem foi ou vai ser processado por tal ou qual crime político, ou quem vai assumir a cadeira de fulano, caso sicrano dê com a língua nos dentes e destrua não sei quantas carreiras políticas até ontem sólidas. Se sei alguma coisa sobre política e economia é porque de um modo ou de outro gosto de letras, palavras e de coisas bem escritas. Se o artigo é bem escrito, então eu leio. A História me fascina; a Filosofia também. E também a Filosofia Política, e a História Econômica, mas apenas pela carga de literatura de não-ficção que eles contêm. Não sei se me explico bem. Se o texto ou livro é bem escrito, então a coisa me interessa. E aí é uma delícia saber de História, Filosofia, Economia, o que for. Mas não me pergunte quando foi a última vez que eu comprei o jornal local para saber das notícias, não me pergunte se puxei conversa para saber das últimas da politicalha. Não gosto, não quero nem ouvir. Mas ouço rádio, admito. Especialmente a CBN e a Jovem Pan AM. Não me pergunte por que, pois não sei explicar. Outra coisa: houve uma época, na minha adolescência, em que copiei O Analfabeto Político, de Bertolt Brecht. Aliás, quase o emoldurei e o coloquei na parede. Era um credo para mim. Hoje, ao lê-lo, acho-o ridículo. Aquilo é de uma ingenuidade (ou, como suspeito às vezes, de um ditatorialismo) sem fim. Que nos seja permitido ser analfabetos políticos; que nos seja dada a liberdade de ser analfabetos políticos, pois já não é possível mudar nada politicamente. Se dobro a esquina e escuto dois sujeitos conversando sobre política (especialmente a local, que me perece ainda mais repugnante), tenho, para comigo mesmo, um sentimento de alívio quase inexplicável. Não sou eu que estou ali, naquela xaropada. É quase como se eu me felicitasse por não pertencer a este mundo. Nessas horas, se me lembro do texto do Brecht, tenho vontade de rir. Não rio porque ainda há algum resquício de idealismo em mim, mas certamente não o idealismo ingênuo (ou mentiroso, ou inviável, ou risível) do texto.
domingo, 14 de dezembro de 2008
É DOMINGO
Tudo é silêncio dentro deste apartamento. Mas pela janela chegam vozes de crianças brincando, e estalos suaves de palmas leves, e o som das rodas dos carros sobre o asfalto. Há trechos brevíssimos de música indistinguível e um rumor distante, contínuo e inclassificável, que gosto de imaginar, mesmo sabendo que é impossível que ele chegue até aqui, que é o das ondas batendo na praia, lá longe. É domingo. Agora me explique: por que nos outros dias você não nota estas coisas?
sábado, 13 de dezembro de 2008
CEM ANOS DE SOLIDÃO
E porque eu falei da chuva lembrei de Cem Anos de Solidão. Não sei se você já leu. Se não leu, deve ler agora. Pare tudo o que estiver lendo e comece a ler. Algumas páginas de estranhamento são naturais, talvez as trinta primeiras. Mas depois você entra naquele mundo e não quer mais sair. Quando sai, no final do livro, fica com pena. É uma das revelações literárias da minha vida. Algo mudou em mim, e pra melhor, depois que li Cem Anos de Solidão. Quantos momentos bons lendo o livro! Ah, e por falar nisso, a chuva! Há um capítulo no livro que começa assim: “Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias.” Esse capítulo desperta em mim não sei que emoções indefiníveis. Talvez porque na época em que li o livro tenha chovido com certa regularidade (não tenho certeza, mas me lembro de algumas chuvas). De qualquer modo, o capítulo inteiro, como todo o livro, é um deslumbre. Veja esta passagem: “O ruim era que a chuva atrapalhava tudo e as máquinas mais áridas brotavam em flores por entre as engrenagens se não fossem lubrificadas de três em três dias, e se enferrujavam os fios dos brocados, e nasciam algas de açafrão na roupa molhada. A atmosfera estava tão úmida que os peixes poderiam entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentos.” Esse clima de irrealidade, tão estranho para quem começa a ler o livro, rapidamente se solidifica e passa a ser a única realidade possível enquanto o livro está aberto. E toda vez que você fecha o livro e olha ao redor, e pensa nos seus compromissos, nas coisas chatas que tem que fazer, você percebe o quanto é sem graça a realidade de verdade. E aí você quer voltar ao livro, quer acompanhar a saga dos Buendía, quer viver em Macondo, quer que aquilo dure para sempre. Já li o livro duas vezes, com intervalo de anos entre elas. Agora pretendo ler uma terceira vez, mas no original. Não domino o idioma espanhol, mas acho que com boa vontade e um dicionário razoável é possível penetrar novamente naquele universo, cheio de mistérios e encantamento desde a primeira frase: “Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.”
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
CLÉO E DANIEL
Porque hoje choveu eu lembrei do livro Cléo e Daniel, de Roberto Freire. Na verdade, lembro de pouca coisa do enredo. Sei que era uma história de amor atormentada, se não me engano entre dois adolescentes. Havia no livro um ar de urgência, algo de trágico cercando os dois amantes. E por que eu relaciono o livro com a chuva? Eu era adolescente e morava em Arapiraca. Um final de tarde – eu estava lendo o livro em casa – caiu uma forte chuva sobre a cidade. Um toró que durou poucos minutos, mas que foi suficiente para alagar algumas ruas. Depois que a chuva passou, o céu adquiriu um tom diferente e ficou ainda mais dourado. Antes, quando a chuva começou, eu havia fechado o livro e ficado à janela, contemplativo; aí, quando parou de chover, eu pus o livro de lado (acho que foi o que fiz) e fui andar pelas ruas. Estava tudo tão bonito! As calçadas molhadas, as telhas pingando, as pessoas pulando poças! Acho que o fato de estar lendo o livro (porque esse tipo de coisa acontece, e só quem lê sabe o quanto a sensação é intensa) influenciou o meu estado de espírito. Eu havia saído do livro num tal estado de irrealidade, tão envolvido naquela história de amor, que só podia ver o mundo através das cores do romance. Então misturei tudo e guardei bem na memória. Até hoje, sempre que chove (tudo bem, não é sempre, mas é quase), é a imagem desta tarde que me vem à lembrança. E Cléo e Daniel, e aquele amor louco, aquela história carregada de eletricidade, está definitivamente ligado a ela.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
AS VANTAGENS DA DECOREBA II
Mas talvez a culpa não seja do sistema (falo do tal sistema das conexões e relações, cujo nome eu nem conheço e sobre o qual generalizo barbaramente), mas do desprezo que se tem pelo ensino. Os professores, de um modo geral, não querem ensinar: ou são mal remunerados ou são ameaçados pelos alunos ou pelos pais deles, ou as duas coisas. Os donos das escolas particulares não têm outro interesse senão o lucro, pois estão num negócio e é natural que ajam como negociantes. Os alunos têm duzentas preocupações, entre as quais não está a de tirar uma boa nota. Os pais têm oitocentas preocupações, entre as quais não está a de exigir dos filhos um bom desempenho escolar. E assim vão todos empurrando com a barriga (e para o fundo do poço) a obrigação de produzir, ou pelo menos adquirir, conhecimento e cultura. Eu, que no máximo podia ser considerado uma aluno mediano, sabia “de cor” (talvez um dia a expressão seja banida, por ser politicamente incorreta) a tabuada inteira. E se me dessem uma frase, mesmo daquelas grandes, eu sabia decompor suas palavras, classificando-as em classes gramaticais, com detalhamento de número, gênero e grau, quando fosse o caso. De que isso me adiantou? Não sei ao certo, mas a necessidade de decorar pelo menos me ensinou a estudar e a ter disciplina. Eu me lembro que minha mãe tomava as lições comigo quase todos os dias. Se eu não aprendesse os afluentes da margem direita do Amazonas (Javari, Jutaí, Juruá, Tefé, Coari, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu) eu voltava pro quarto e só saía de lá quando tivesse aprendido. E isso acontecia quantas vezes fossem necessárias. Esses e outros métodos de ensino (e minha mãe me puxando a orelha) me deram alguns conhecimentos que considero indispensáveis, e que fazem parte da minha vida até hoje. Não sei se eu seria um aluno melhor com as novas técnicas educacionais. O que sei é que aprender a decorar (sem precisar do estímulo da palmatória) me foi muito útil. No final das contas, penso que a decoreba não era só um método: era uma filosofia.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
AS VANTAGENS DA DECOREBA I
Hoje em dia é um sacrilégio decorar. Não se decora mais nada. Decorar é feio e mau, e o bom e certo é entender, estabelecer conexões, pensar sobre o fato, criar a partir dele, formando uma teia de conhecimentos. Muito bonito. Talvez funcione. Mas fiquei estarrecido ao perguntar a uma menina de quatorze anos, que havia acabado de concluir a oitava série, quem descobriu o Brasil. Ela me respondeu certinho, embora tenha hesitado por dois segundos e meio: Pedro Álvares Cabral. (Até aí eu não estava estarrecido, claro. Fiquei depois, como você vai ver.) E em quem ano se deu isso? Deixa eu ver... ahn... ahn... mil oitocentos e... Bom, aí eu fiquei estarrecido. Antes disso ela havia me dito que estava tendo aula de Filosofia. Pois bem. Eu tinha pedido a ela que me dissesse o nome de um filósofo, só um. Ela não soube me responder. Bom, pensei, é porque a garotada de hoje não decora mais nada. É proibido. Ela deve ter estabelecido conexões e certamente vai saber dizer para que serve a Filosofia, mesmo que não saiba o nome de nenhum filósofo. E ela me respondeu, com a cara mais lisa: A Filosofia serve para filosofar, é claro. Eu tornei à carga: E o que é filosofar? Ahn... ahn... ahn... ah, não sei! (Ela tinha uma expressão que dizia: “Ah, me deixe em paz!”). Depois de conversar com ela durante um bom tempo, fiquei com a impressão de que ela não sabia nada de nada, absolutamente nada. Sabia falar e escrever, e o resto era profundo e inescrutável. Então relembrei os meus tempos de colégio, quando a gente tinha que decorar, simplesmente. Não tinha esse negócio de estabelecer relações e conexões, coisas que só vinham depois. Era decorar e pronto. Se não aprendeu, ui, às vezes tinha palmatória. Nem por isso eu e os da minha geração tivemos uma formação pior que a dos meninos de hoje. Pelo contrário: acho que os meninos de hoje aprendem a estabelecer (malmente) conexões e relações, e depois, quando estão perto da faculdade ou dentro dela, descobrem que não sabem de nada. E aí vão decorar tudo o que tinham que ter decorado quando eram crianças, para ver se conseguem recuperar o tempo perdido.
sábado, 6 de dezembro de 2008
UM CERTO VENTO
Nessa época do ano há um certo vento que sopra do Atlântico e se mete ruas e casas adentro, ali, logo depois que se dobra a curva da Ponta Verde em direção a Cruz das Almas. Não sei se em outros lugares da cidade é possível senti-lo. Talvez no Farol, que é mais alto. De qualquer maneira, pode ser que não seja o mesmo vento. Pode ser outro, um vento irmão. O que sei é que este vento de que falo (ele deve ter um nome, mas o meu conhecimento não alcança tanto) é dado a fazer traquinagens. Abra a porta do carro na direção contrária a ele... e ele a escancara como se a quisesse quebrar. Pior: abra a porta do carro na direção dele... e ele rompe-lhe a canela, fechando a porta enquanto você tenta sair. É preciso cuidado com este moleque crescido. Ele adora assanhar os cabelos, mesmo os fixados com gel. É chegado a levantar saias de moças (e de mulheres mais maduras também, que ele não tem preconceito). Tem o mau vezo de roubar os papéis às mãos incautas. Adora salpicar de areia os carros recém lavados. E, claro, não pensa duas vezes antes de enfiar ciscos nos olhos dos outros. Mesmo assim, com toda esta molecagem (ele já quis quebrar a porta do meu carro várias vezes, e já me assanhou tanto o cabelo que já não me preocupo em penteá-lo), confesso que o admiro. Admiro sua força e sua personalidade, que aparecem mais no começo da tarde e à noite. Agora mesmo, enquanto escrevo sobre ele, balança-me os vidros da janela e assobia. Está certo, meu irmão, eu sei que você está aí. Chegou e vai passar o verão inteiro assobiando e fazendo molecagens. Puxe cadeira. Entre a sua palração e o silêncio do mormaço, acho que todo mundo prefere você. Mas comporte-se um pouco. Puxe cadeira e assente-se, que conversando a gente se entende.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
TÍTULOS
Eu tenho dois ótimos títulos para contos. Acho que não são adequados para romances. No máximo uma novela, vá lá. Para contos são perfeitos. Sinceramente, acho que são imbatíveis. Talvez eu devesse ganhar algum prêmio por eles, só por eles. O primeiro é Quatro Gatos Pingados. Diga aí. Maravilhoso. A primeira imagem que me vem à cabeça, quando penso no título, são quatro gatos num cinema vazio. Ah, e os gatos estão sentadinhos nas cadeiras, assistindo a um filme qualquer (ainda não pensei em qual seja, mas tem que ser um que evoque metáforas profundas). Quatro gatos pingados. Na imagem que criei há ainda uma certa névoa no cinema, talvez fumaça de cigarro, alguma coisa assim. Mais que isso não há. Não creio que eu tenha algum dia coragem de escrever esse conto. Ele fatalmente seria inferior ao título. E não porque o conto fosse meu: qualquer um falharia em dar forma e conteúdo a este título maravilhoso. O outro título: Mal e Porcamente. Diga aí. Maravilhoso também. Eu imagino dois sujeitos, uma dupla de bandidos talvez, mas daqueles meio ultrapassados, românticos, que não matam nem ferem ninguém. E os dois viveriam fazendo trapalhadas. Mal e Porcamente. Maravilhoso. Tão bom que também não permite desenvolvimento. Impossível escrever sua história sem fracassar. Na verdade, os dois títulos se bastam. Neles já está dito tudo, e o mais seria redundância. Os dois têm até uma certa carga poética, um misterioso poder de sugestão... Já sei o que você deve estar pensando: são apenas expressões chulas, frases feitas. Está certo, são. Mas e daí? Ninguém nunca as elevou à categoria de títulos. Fui eu que as catei na vala comum e as transformei em imagens vivas, em labirintos de possibilidades. Se no final da vida eu nunca chegar a fazer nada que preste, meu consolo será este: terei criado dois títulos dignos de figurar em qualquer antologia... de títulos. Merecidamente.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
UM DEVER CUMPRIDO
Hoje na CBN uma médica contava a seguinte história: certa vez, quando era residente, atendeu um homem que havia sido atropelado. O acidente havia sido muito grave e, a despeito dos esforços da equipe médica, o homem não sobreviveu. Quando procuraram saber sua identidade, descobriram que ele não tinha documentos. Então um paramédico (acho que era isso) apareceu com um pacote na mão e disse que aquilo era a única coisa que o homem carregava no momento do acidente. (Não é preciso dizer que se ali não houvesse nenhuma indicação da identidade do homem, ele poderia ser enterrado como indigente.) Naturalmente, abriram o pacote. E o que havia dentro? Fraldas, apenas fraldas. A médica disse que, naquele momento, desabou. Essa foi a expressão dela. Não é preciso dizer mais, nem por quê. Quando pensei em contar a história, perguntei a mim mesmo: por que devo falar disso? Não sei ao certo. Talvez para imaginar que de alguma forma a mulher daquele homem soube do que aconteceu, e que depois de toda a angústia por que passou (Onde andará ele, meu Deus? O que será que houve? Será que me deixou? Será que...), livre enfim da dor da incerteza (mas entregue a outras), chegou-se ao seu filho e, recompondo-lhe aquela teimosa mecha de cabelos que insistia em cair-lhe sobre a testa (imagino que era um garoto, e que já estava mais crescido), contou-lhe sobre o bom pai que ele não chegara a conhecer. Um homem honrado, que tinha cumprido o seu dever. Comprou as fraldas que tinha de comprar. E estava voltando para casa.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
LOBO ANTUNES
O problema do Lobo Antunes (António Lobo Antunes, que para alguns é o maior escritor vivo da língua portuguesa, e o Saramago que se dane) é que ele cansa. Abra uma página qualquer e você vai se encantar com uma prosa que é pura poesia. O problema é que você vai lendo, lendo, vai acumulando (ou melhor, o Lobo Antunes vai amontoando sobre você) imagens poéticas, frases que se repetem, vêm e vão, e aí começam a aparecer as vozes que conduzem a história, cada uma delas narrando os fatos sob o seu ponto de vista, e aí você vai se perguntando onde é que isso tudo vai dar, e por que ele (o Lobo Antunes) não chega logo a uma conclusão, e por que fulano de tal, que quase não desempenhou papel nenhum na história (foi o amante da filha bastarda do ministro, sei lá) merece todo um capítulo, igualmente poético e lindo, mas desnecessário, pois bastava dizer que ele tinha sido amante dela e pronto, e aí... você cansa. Sai pra lá! Eu estava lendo o Manual dos Inquisidores, e comecei entusiasmadíssimo. Li as primeiras cem páginas num pulo, as cinqüenta seguintes com disposição, as outras cinqüenta com esforço, e as cinqüenta finais (para mim) com desespero. E ainda faltavam pouco mais de cem. Larguei mão. Um cansaço invencível, um abuso. Que se dane o Lobo Antunes. Se escrevesse contos, perfeito. Mas não: adora falar, adora o próprio estilo, e faz calhamaços de quatrocentas, quinhentas, seiscentas páginas. Resultado: não quero nem tentar mais. Eu já tinha lido o A Ordem Natural das Coisas. Não tinha achado ruim, só tinha achado... cansativo. Acreditei que o Manual seria melhor, e de certa forma (até onde agüentei) foi, mas é irremediavelmente chato. Bem. Repus o livro na estante. Curioso: estão lado a lado o Lobo Antunes e o Saramago. Do Lobo Antunes tenho dois livros; do Saramago, dez. E já li todos.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
O BILHETE VOLTOU
Fico imaginando por que não fecharam ainda este Bilhete. Tanto tempo abandonado... e eu que fui para tão longe! Na verdade, acho que ainda não o fecharam porque nunca souberam que existia. Mas afinal, quem é que o ia fechar? Quem será este demiurgo, esta entidade que permite que os blogs se abram e os fecha quando eles não mais convêm, ou quando foram abandonados? Talvez não haja ninguém por trás da blogosfera. Talvez a blogosfera seja apenas superfície. De qualquer modo, é bom saber que ele ainda está aqui, este Bilhete para a Distância, de vida tão curta. É bom poder escrever nele tendo a certeza de que ninguém vai me ler. Se era abandonado quando eu o divulgava (apenas para os amigos, que o acessavam com certa disciplina comovente), agora então... Por um momento penso (acabei de pensar) em retomá-lo, voltar a escrever sem dizer a ninguém. Seria o meu segredo. Um diário mantido em segredo... em plena Internet. Que ironia! Não dizem que o melhor lugar para esconder as coisas é onde se imagina que elas estarão mais expostas? Talvez seja uma boa idéia: colocar alguma coisa aqui todo dia, escrever não mais sobre lugares distantes, a que nunca fui ou a que nunca vou, ou que apenas em sonho ou imaginação visitei. Escrever sobre o que me der na telha: uma frase talvez, uma impressão, um pensamento, qualquer coisa. Mantenho o mesmo nome. Tudo é distância. A medida poupa-me o trabalho de criar um outro blog, uma outra cara, novos tipos, tudo. É isso. Vou voltar a escrever. E se um dia eu cansar de novo, ou se se me esgotarem os assuntos, como sói acontecer (este “sói” é ótimo), abandono-o de novo. Ninguém o vê, ninguém o viu. Fica assim mesmo, meio torto, canhestro e experimental: basta ver, como sinal dos novos tempos, a liberdade com que uso o “sói”, que é ótimo, e o “se se me esgotarem”, este pernosticismo que eu não escreveria jamais no Bilhete de antigamente.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
MINAS GERAIS
(Para ter vontade de ir para Minas, ouça Itamarandiba, de Milton Nascimento e Fernando Brant.)
Um amigo me diz que sempre quis se mudar e que Belo Horizonte poderia ser uma opção. Penso um instante na idéia e concordo com ele. Não que eu sempre tenha querido me mudar. Eu quis algumas vezes, e às vezes quero, mas não sempre. Mas concordo com ele quanto ao fato de que Belo Horizonte pode ser uma bela opção. Quando me falam em Belo Horizonte, a primeira coisa que me vem à mente são montes, colinas e morros, ou, como diz Fernando Pessoa, outeiros (“E vejo um recorte de mim/No cimo dum outeiro”). (Recentemente visitei Belo Horizonte, e posso juntar aos substantivos acima, no meu imaginário, as ladeiras. Pois Belo Horizonte é fundamentalmente suas ladeiras.) Por outro lado, é certo que morros, colinas e outeiros não remetem precisamente a Belo Horizonte, mas a Minas. É que na minha mente litorânea não há como dissociar os dois lugares. Talvez o meu amigo estivesse se referindo a Minas e não a Belo Horizonte. Não sei. Ou talvez ele quisesse mesmo ficar na capital, onde poderia ter uma vida pacata e ao mesmo tempo cosmopolita. O que sei é que Minas também é uma excelente opção. Ouro Preto, São João Del Rei, Curvelo, Montes Claros, Cordisburgo, Itabira. Cada uma dessas cidades (mas não apenas elas) tem uma história especial: em Itabira, por exemplo, nasceu Carlos Drummond de Andrade; em Cordisburgo nasceu Guimarães Rosa; em Ouro Preto viveram e fomentaram a subversão os poetas inconfidentes. E em Belo Horizonte, claro, viveram Milton Nascimento, Tavinho Moura, Wagner Tiso e Fernando Brant, os criadores do Clube da Esquina. Na verdade, parece que qualquer cidade, ou melhor, qualquer lugar de Minas é bom pra se morar. Por que não viver em Alfenas, ou em Campo Belo? Ou em Itamarandiba? (“Itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida.”) Ou em Turmalina? ("No caminho dessa cidade passarás por Turmalina”) Ou em Pedra Azul, ou em Diamantina? (“Sonharás com Pedra Azul, viverás em Diamantina”). Até no Vão do Buraco, ao norte da Serra das Araras, ao sul do Rio Carinhanha, deve ser bom de se viver. Mas sei que o desejo de partir, que ninguém explica direito mas que todo mundo sente, cria uma espécie de miragem: todos os lugares parecem bonitos e bons de se morar. Ah, uma esquina molhada de chuva em Belo Horizonte, naqueles dias de vento e frio; ah, um pôr do sol em Montes Claros, o céu cheio de laranja e amarelo e vermelho! Tudo é tão bonito, tão irreal. Mas acho, verdadeiramente, que morar em Belo Horizonte ou em Minas é uma boa idéia. Se um dia eu quiser criar cabras, ou plantar uma horta modesta e digna (e considero estas ocupações verdadeiramente nobres), considerarei Minas, seus morros, suas colinas, seus outeiros e suas ladeiras.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
OS LUGARES DA INFÂNCIA
O BILACÃO
Era um fervedouro de facínoras. Acho que foi lá que entrei em contato com a malandragem humana pela primeira vez. Foi lá que descobri que, se queria viver no mundo, tinha que ser esperto. Pois bem, o Bilacão era um campinho de terra batida que ficava na rua Olavo Bilac, perpendicular à Pedro Correia, onde eu morava. Comecei a freqüentá-lo quando tinha uns doze anos, louco para jogar bola, e me deparei com uma variada fauna de malandros, todos mais velhos que eu. Foi no Bilacão, para citar apenas um exemplo, que vim a conhecer aquele deslocamento tão comum, aquele toque de ombros tão doce, tão inocente, que um jogador dá no outro quando estão lado a lado – o chamado “encosto”. Foi assim: eu conduzia a bola em desabalada carreira pela lateral direita, pronto para fazer um cruzamento; com o rabo do olho, vi quando um dos facínoras se aproximou de mim, pela minha esquerda. Imediatamente suspeitei de algo. Então o dito-cujo emparelhou comigo e, singelamente, como se não quisesse nada, encostou seu ombro ao meu, fazendo um leve movimento para a frente. Fui lançado, sem bola e aos tropeções, para a linha lateral. De imediato, furibundo mas triunfante, gritei: “Falta!”. Os outros jogadores, inclusive os do meu time, me olharam como se estivessem vendo um animal pré-histórico – e não disseram nada. Como ainda havia alguma humanidade no mundo, o próprio facínora que tinha me deslocado tratou de iluminar a minha ignorância. Parou, o pé sobre a bola, e explicou: “Falta? Tá doido?! Isso foi um encosto!” Falou como se fosse a coisa mais banal do mundo. Então voltou-se para a frente, para o seu campo de ataque, e fez um lançamento primoroso.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
LONDRES
Tenho a impressão de que em Londres chove todos os dias. Mesmo nos dias em que não chove, para mim é como se chovesse. A chuva está impregnada em minha pele, que é úmida e pálida. Às vezes me canso e quero ir embora: quero ver e sentir o sol, caminhar sem capotes, sem guarda-chuva pendurado no braço ou jornal levado à cabeça (este último caso tem lugar quando a chuva me pega desprevenido, pois embora chova todos os dias, às vezes saio de casa com a ingênua esperança de que não vai chover). Gosto de Londres, e tenho muitos motivos para gostar: de mil modos diferentes já vi a chuva escorrer em intermináveis janelas, durante o dia e durante a noite; em mil diferentes intensidades, como cachoeiras violentas ou como arroios que fluem sem estardalhaço, já vi as águas caindo de infinitas bicas; desde o fechado e cinza até o translúcido como um cristal sem mácula, já vi mil diferentes matizes de horizonte. Todas estas coisas já vi, e outras: belas mulheres de vestido molhado colado ao corpo, as curvas se pronunciando sob o tecido, os músculos estremecendo com seus passos rápidos; e homens de terno e gravata, antes tão confiantes e seguros, de repente completamente ensopados, como passarinhos molhados e friorentos. Tudo isso a cidade me proporciona – e sabe proporcionar aos que crescem nela. Eu gosto de Londres, e de sua chuva que é como uma assinatura. No entanto, como um amante insatisfeito, às vezes quero deixá-la. Por quê? Nos trópicos cansarei do sol, e nos altiplanos cansarei do frio; nas estepes cansarei do horizonte, e nas planícies cansarei dos ventos. Não há lugar para onde se vá que não produza uma acomodação a princípio difícil, depois suave e gentil, e por fim cansada e rotineira. Por que mudar, então? Não sei. Uma vez, muito tempo atrás, eu estava com um amigo num bar e ele me disse a seguinte frase: nada é ou vai ser completamente conhecido. Não sei do que falávamos, se de mulheres, cidades ou amigos. Lembro-me, no entanto, de que a frase foi tão terminativa, tão peremptória, tão consistente, que não tivemos outra alternativa senão encerrar nossa conversa. Pedimos a conta e saímos para a rua. Como sempre, caía uma chuvinha fina que não demorou a nos ensopar. Enquanto andávamos reparei, como que tocado pelas palavras de meu amigo, que algumas das esquinas pelas quais passávamos nunca haviam atraído a minha atenção, e que cada uma delas tinha não apenas um traço distintivo, mas muitos: as janelas, as portas, os tijolos e as calçadas, tudo era, de uma maneira mais ou menos sutil, muito variado e singular. Pensei: se há tanto detalhe nas coisas e na vida, tanto segredo por descobrir, tanto para aprender, por que às vezes quero deixar Londres e sua chuva? Não será a mesma coisa em outro lugar, depois que eu me acomodar a ele? Sim, será. E no entanto esse desejo de partir me persegue, e essa insatisfação parece ser a essência da minha alma. Eu sei que a culpa não é da chuva. Aliás, a culpa não é de ninguém – se é que há culpa. Acho que há apenas um desejo de partir, um chamado que não se sabe de onde vem, e há a cidade que julgo (erroneamente) já conhecer, e as cidades que ainda não conheço. Só.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
OS LUGARES DA INFÂNCIA
AS REVISTAS EM QUADRINHOS
Claro que as revistas em quadrinhos – os gibis – são lugares da infância. Eu costumava lê-las na rede da varanda da minha casa, e esse ritual era especialmente bom quando estava chovendo: a chuva caindo lá fora e eu lentamente, bem len-ta-men-te, lendo a tarde toda. Mas eu também gostava de ler no meu quarto: normalmente comprava as revistas à tarde (corria pelas ruas, a mesada no bolso, ansioso para chegar à banca de revista – que, por sinal, era um lugar absolutamente sagrado) mas quase sempre esperava a noite chegar. Então me trancava e partia para outros lugares. Ia para Gotham City, para Patópolis ou para a Ciméria. Enfrentava inteligências criminosas, buscava tesouros escondidos, engalfinhava-me com selvagens neolíticos – e vencia sempre. Só voltava à realidade para dormir, e ainda assim para sonhar com a próxima saga, a próxima aventura, em qualquer um dos muitos lugares distantes que eu conhecia.
sábado, 17 de maio de 2008
UM BILHETE PARA A DISTÂNCIA
Era uma manhã fria e nevoenta, e nós havíamos atravessado razoavelmente incólumes a noite de festa e barulho. Sentados na areia, diante do mar encapelado, estávamos silenciosos. Com um suspiro, ela se voltou para mim e disse, sua voz abafada pelo barulho das ondas: “Quem já não teve vontade de partir, não é?” Não entendi e olhei para a linha do horizonte. Busquei algum navio distante, algum solitário ponto perdido na junção entre a linha do céu e do mar. Não vi nada, a não ser uma tênue faixa branca à distância – os arrecifes escondidos sob a superfície da água. Como eu não sabia o que dizer, com o olhar encorajei-a a prosseguir. Ela continuou. Disse que às vezes tinha vontade de partir – não de morrer, frisou, mas de partir. Ir para algum lugar distante, longe de tudo: longe dos telefonemas importunos, das festas às quais tinha que ir, mesmo sem vontade, longe dos perguntadores profissionais, dos chatos empedernidos, do trabalho maçante, da solidão dos finais de semana, longe da traição, da violência, das coisas que não deram certo e das que não dariam de jeito nenhum – pois ela sabia, pelo menos na vida dela, quais eram estas coisas –, longe do passado, todo e qualquer passado, bom ou ruim... E nesse ponto a interrompi: objetei que era impossível fugir do passado. Das outras coisas, sim, era possível escapar, mas não do passado. Ela me ouviu, pois fez uma expressão de assentimento, mas continuou em seu devaneio: tinha que partir deixando saudade nos outros, nos que lhe eram caros mas a magoaram. Não tinha graça partir se os outros não sentissem sua falta. Tinha que deixá-los queimando, em fogo lento, na dor viva da ausência. Eu sorri, interrompendo-a mais uma vez: “Mas isso é vingança!”. “Claro que é!”, ela concordou. Disse que quando a gente tem vontade de partir desse jeito é porque está magoada – com o mundo ou com certas pessoas –, e quer retribuir, de alguma forma, a dor que sente. “Ao mesmo tempo”, ela me disse com um sorriso triste, “a gente quer esquecer que algo em nós dói. A dor que fique só pra eles – ou para o mundo.” E aí me falou como seria bom partir para lugares distantes: uma aldeiazinha nos confins do Tibete, uma vila no sul da Itália, uma ilha no mar do Caribe, o anonimato da multidão em Hong Kong, uma cidadezinha nos andes, uma estância nos pampas, um chalé nos alpes, um oásis no Saara, uma tenda no Atacama... Livre e feliz, esquecida da dor e isolada do mundo. Era assim que ela gostaria de viver. Mas não sempre e não para sempre, ela me garantiu, talvez para não me assustar com o seu escapismo. Eu não estava assustado, porém. Na verdade concordava com ela: quem já não tinha sentido vontade de partir? Eu também já tinha sentido essa vontade louca. Mas de maneira prática, pouco poética, eu criara um método eficaz para afastar esses devaneios: eu considerava o lado prático das coisas. Ela, por exemplo, ignorava o frio, o calor, a solidão e o perigo que existiam em todos esses lugares idealizados. Eu os tinha bem presentes, e eles eram minha âncora. Mas eu conhecia o verdadeiro intuito dela, sabia que ela só queria paz, sossego e proteção, não importava onde. Olhei para ela de um modo mais intenso, mas ela não me via. Seus olhos estavam fixos no horizonte. Eu disse: “O bom seria que houvesse uma estação de trem ou algo parecido, onde a gente pudesse chegar e dizer: – Me dá um bilhete para a distância. Então o caixa escolheria, ele mesmo, o lugar para onde iria nos mandar, e esse lugar seria sempre bom, sempre seguro, sempre bonito.” Esperei sua reação a esta minha fantasia infantil, mas ela não disse nada, nem me olhou. Não me incomodei. Ela parecia ter partido.
domingo, 27 de abril de 2008
OS LUGARES DA INFÂNCIA
RUAS (II)
Marcamos um jogo de futebol com um time do qual não lembro o nome. Aliás, sequer lembro o nome do meu time. De bicicleta, fui até a casa de um dos meus amigos. Dali fomos até a casa de outro, e de outro, e de outro. Em pouco tempo éramos o time inteiro atravessando a cidade sob o sol das duas da tarde. Chegamos a um campinho de terra remoto (pra mim, quase à borda da civilização) e lá nos aquecemos com empáfia e brio. Jogamos com afinco e perseverança – e perdemos. Voltamos cabisbaixos, e o sol já se punha. Meus amigos foram se espalhando pelo caminho, cada um em direção à própria casa. Houve um momento em que me vi sozinho, pedalando por ruas que não conhecia. Tive medo – e tive também a certeza de que o mundo era grande, irremediavelmente maior do que eu tinha aprendido nos livros de Geografia e História.
O CASTELO
Não sei que poeta, escritor ou filósofo disse que o inferno é a ausência da pessoa amada. Lembrei da frase quando li sobre a vida do conde D'Armand, que, impedido de viver com a mulher que amava, a plebéia Monique d'Lavrier, mandou construir um castelo no alto do monte Aros para lá viver, em solidão e desespero, o resto de seus dias. Parece – pois nada é certo nesta história, exceto que ele realmente construiu o castelo e morou nele até a morte – parece que foi o pai da moça quem impediu o casamento. Não é novidade para ninguém que os plebeus incentivavam o casamento de seus filhos com a nobreza. Não poderia haver maior sorte para eles. Neste caso, porém, o pai não só não incentivou o casamento como usou de todos os recursos (diz-se, mas não se comenta quais) para impedi-lo. Talvez tenha sido por vingança, pois aparentemente seu pai, o avô da moça, teria sido morto pelo avô do conde. De qualquer maneira, esta é apenas uma das hipóteses. Uma outra, tão corrente quanto esta, conta que foi a moça quem não quis casar com o conde, que era narigudo e fanho. Uma terceira, mas esta bem menos aceita, diz que a moça chegou a casar com o conde, mas fugiu dias depois, com um cavalariço. O fato é que o conde viveu o resto dos seus dias no castelo, sozinho e praticamente incomunicável. A construção, por sinal, era um bem urdido mistério. Era, na verdade, um castelo dentro de um castelo dentro de um castelo. Os que o visitaram (poucos) disseram que era impossível saber-se exatamente quando terminava a realidade e começava a ilusão. A coisa acontecia do seguinte modo: atravessado o portão principal, o visitante via-se num imenso jardim; ao percorrê-lo, acabava atravessando um novo portão e um novo jardim, idênticos aos primeiros até no tamanho. O visitante continuava o tormentoso passeio até chegar ao interior do castelo, onde começava uma nova ilusão: atravessava-se salas que davam para salas que davam para salas, todas idênticas, e percorria-se corredores que davam para corredores que davam para corredores, todos exatamente iguais. O mesmo acontecia com os quartos e com os outros aposentos. E o detalhe mais inquietante: todas as áreas – jardins, salas, corredores, quartos –, rigorosamente todas, tinham o mesmo tamanho. Como colocar um caixa dentro de uma caixa sem diminuir-lhe o tamanho? Essa era a pergunta que todos se faziam, sem nunca obter resposta. O castelo já não existe mais: foi completamente destruído pelos turcos há duas centenas de anos. Somente o relato atônito dos que o visitaram preserva a sua memória. Na verdade, também há trechos de uma suposta carta escrita pelo conde, não se sabe exatamente quando, talvez poucos meses antes da invasão, e que diz assim: “Este é o meu lar, o espelho de minha alma, opulenta e vazia. Seus muitos quartos são tão estéreis quanto meu coração, e não convido ninguém para habitá-los. Podem, os que quiserem, percorrer minha morada, mas sem o meu consentimento. De todo modo, eu não os impediria, pois nada me importa senão [aqui inicia-se um longo trecho ilegível. O trecho seguinte é o final da carta]. Os que conhecem minha história já estão, por esta época, todos mortos. Os que vierem a conhecê-la, só o farão de modo imperfeito. De qualquer modo, também isto pouco me importa. Importa antes o matiz do sol da manhã em cada uma das janelas da ala oeste, que são tantas que nem mesmo eu conheço o seu número; importa antes o tamanho da lua nas janelas da ala sul, que se pintam de laranja quando é lua cheia. Ainda assim, penso, nada importa em demasia. O sol e a lua me consolam, mas nada me alegra. Já é tempo de tudo acabar-se, e rogo que se acabe logo.” Estes trechos contraditórios revelam, certamente, um espírito atormentado. Os especialistas afirmam que não é possível dizer com certeza se a carta é realmente do conde, mas consideram plausível a possibilidade. Todos concordam, evidentemente, em que o conde, ou quem escreveu a carta, passava por grande sofrimento. Nem todos, porém, são unânimes (somente os mais românticos) em dizer que o castelo representava não só o vazio da alma do conde, mas uma das constantes da vida: o amor que se perde. Dizem estes mais românticos: todos enfrentam esta constante, e todos a sofrem do mesmo modo. Mesmo os que a sofrem mais de uma vez a enfrentam como se fora sempre a primeira. É como sair de um quarto e entrar em outro, ambos idênticos. Ou sair de um corredor e entrar em outro, em tudo iguais. Constantemente.
segunda-feira, 31 de março de 2008
OS LUGARES DA INFÂNCIA
RUAS
O meu mundo era a minha rua. Certa noite os adultos me colocaram num carro: iam levar-me, não sei por que motivo (pois nunca haviam feito isso antes), a um tradicional bar da cidade. Deslumbrado com as ruas pelas quais passávamos, estive silencioso todo o tempo. Foi como uma viagem ao outro lado do mundo, de tão distante que era. Lá do outro lado, porém, achei tudo feio, escuro e barulhento. Os adultos me deixaram tomar um guaraná e, do nada (pelo menos para a minha cabeça de criança), decidiram voltar. Mantive-me silencioso durante toda a volta, admirando pela janela do carro aquela nova geografia. O bar, que vim a freqüentar muitas e muitas vezes na adolescência e na fase adulta, chamava-se (chama-se, pois agüenta-se até hoje) Bar do Paulo – em homenagem ao “seu” Paulo, o proprietário. Mas na época o bar não era importante. Importante era o caminho que se percorria para chegar lá.
sábado, 29 de março de 2008
TÓQUIO
Não há dúvida de que o improvável acontece. Aliás, o improvável costuma acontecer com regularidade desconcertante. O caso é que nunca estamos preparados para ele. Achamos que as coisas têm de obedecer a uma certa ordem que nós, deuses arrogantes, traçamos e decidimos que tem de ser cumprida. O pior é que em geral não acontecem como queremos, ou acontecem muito pouco. E no entanto insistimos em desenhar nossas rotas, mesmo intuindo que a vida tem seus próprios caminhos – e que os impõe a nós sem piedade. Na maioria das vezes, essas coisas nos desgostam. Mas há situações em que elas podem ser muito agradáveis. Deu-se um destas comigo. Eu estava em Tóquio a trabalho e, numa noite de insônia, havia decidido procurar um bar onde pudesse passar o tempo. Entrei no primeiro que me apareceu pela frente, e que apenas por milagre percebi. Era um bar obscuro, escondido atrás de uma fachada anódina e sem graça. Não havia placa ou letreiro, de modo que até hoje não sei seu nome. A única coisa que me chamou a atenção, e foi o que afinal me fez entrar, foi um sujeito que dormia, com expressão beatífica, escorado na porta. Dentro do bar havia muita fumaça de cigarro, e pairava sobre as mesas um rumor surdo, de homens conversando em voz baixa, como se conspirassem. O lugar tinha uma atmosfera que, se se tratasse de um filme policial, poderia ser considerada no mínimo suspeita. Sentei-me ao balcão e, depois de meia hora lá dentro, não tinha visto nada que alimentasse minhas especulações. De costas para o palco, eu observava o modo como o barman atendia os clientes, fazendo-lhes caretas e emitindo murmúrios. Estava tentando compreender o que o homem dizia, quando ouvi um som indistinto vindo do palco: um instrumento de sopro, que se elevava por entre o burburinho e produzia um som que eu já tinha ouvido algumas vezes havia muito tempo. Voltei-me, mas, por causa da fumaça, não pude ver nada que estivesse a mais de um palmo do meu nariz. Deixei o balcão, passei por entre as mesas e cheguei à beira do palco. Um instrumento de sopro já era algo improvável num bar como aquele, mas mais improvável ainda era que o instrumento fosse um oboé. Não bastasse isso, atônito, eu constatei que conhecia aquela moça que, sozinha no palco, tocava de olhos fechados. Havíamos sido, no passado, o que se pode chamar de amigos íntimos. Assisti ao show sem que ela me visse. Quando desceu do palco, depois de meia hora de apresentação etérea, rarefeita, surpreendi-a com a minha aparição fantasmal. Passado seu susto, convidei-a para sentar a uma mesa que tinha acabado de ser desocupada, no canto do bar, e intimei-a a me fazer o relato da cadeia de acontecimentos que a tinham levado até ali. Depois de me reafirmar seu improvável amor pelo oboé, que eu conhecia desde o começo, ela me contou que estava morando em Tóquio havia pouco mais de um ano e que não falava quase nada de japonês. Isso não me surpreendeu. Aliás, nada mais naquela noite me surpreenderia. Mas comoveu-me imaginar, por outro lado, sua solidão de estrangeira analfabeta, e os malabarismos que teve de fazer para ser compreendida. Ela me disse que viera a convite do dono do bar, um japonês louco e cabeludo que durante algum tempo tinha morado em nosso país e que a conhecera numa apresentação. Tinha vindo com a cara e a coragem – mais com cara do que com coragem, pois o medo fora muito e grande. Na época, porém, não lhe restava alternativa: não tinha trabalho nem perspectiva de, e havia acabado de sair de um relacionamento que havia lhe tirado tudo, inclusive a alegria. Nada melhor, ela se disse frouxamente, do que viver num país distante. E era feliz agora, mesmo que ninguém prestasse atenção ao seu oboé. Escutei sua história em silêncio, e depois, em dois minutos, contei-lhe o rumo que a minha vida tinha tomado desde a última vez em que nos víramos. Nada que merecesse nota, assegurei. Depois de conversarmos quase toda a noite, propus-lhe que passeássemos pela cidade. Saímos para o frio da madrugada e começamos a andar devagar. Quando chegamos à Estação Shibuya, com seus enormes edifícios de letreiros luminosos, lembrei-me imediatamente de Nova York, e fiz o comentário óbvio: “Esta é a Times Square de Tóquio”. Minha amiga sorriu e disse que nunca tinha ido a Nova York, mas que obviamente tinha visto em fotos a Times Square. E completou: “Hoje toda cidade tem uma dessas”. Era verdade. Todas as cidades estavam começando a se parecer umas com as outras. Andamos durante muito tempo, às vezes de mãos dadas, às vezes enlaçados. Não queríamos mais que isso. Bastava-nos a nossa companhia nesse país estrangeiro e distante. Bastava a feliz coincidência de estarmos juntos. Houve um momento em que ela, distraída, quedou-se a contemplar os letreiros, as imagens miríficas estampadas nos edifícios. Eu a observei discretamente, e pude ver o brilho das luzes em seus olhos, pude ver o vento acariciando-lhe os cabelos negros, pude ver sua testa altiva. Era bela, a minha amiga. E por um desses acasos da vida, eu e ela parecíamos, naquele momento, a perfeita companhia um para o outro.
OS LUGARES DA INFÂNCIA
A MINHA RUA
A minha rua era um campo de futebol. Depois da final da Copa do Mundo de 86 – aquela em que o Maradona tomou a bola para si e não permitiu que ninguém se atrevesse com ela –, eu e meus amigos entramos em campo e fizemos um dos melhores jogos de nossas vidas, só para mostrar ao Maradona que as coisas não eram como ele estava pensando. Mas mesmo antes de eu saber quem era Don Diego (mas não antes de saber quem era Pelé), eu já jogava bola na minha rua – quer dizer, no meu campo de futebol. Os jogos eram sempre à noite, com ou sem chuva. E o melhor, o melhor de tudo, era quando eu conseguia driblar minha mãe e, depois das partidas, dormir sem tomar banho, completamente sujo. Eram lances de craque, raríssimos.
domingo, 16 de março de 2008
O DANÚBIO
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
WEIMAR
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
MAUDLIN STREET
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
VALPARAÍSO
Em Valparaíso é assim: depois que chove, o ar se enche de gotículas minúsculas que saturam a atmosfera e lhe dão uma consistência aquosa. Algumas pessoas, insensíveis às mudanças climáticas, não notam a diferença, e vivem o dia na forma convencional de todos os dias. As que notam, porém, sentem-se como se estivessem imersas numa substância diversa, algo que não é ar nem água. Nesses dias, não bastasse isso, o céu parece baixar em direção à terra, e tudo se cobre de cinza e frio. É sempre assim quando chove em Valparaíso, e isso me incomoda. Houve um dia, porém, em que a chuva, o frio e a opressão do céu nublado de Valparaíso não me incomodaram. Eu caminhava em direção ao porto, sentindo no ar a doce azáfama da movimentação diária dos navios e dos guindastes descarregando contêineres. Apressado, passei por turistas que, num mirador, posavam para fotos. Já seguia em frente quando, não sei por que, me voltei para uma mulher que posava junto a um parapeito. Até hoje não sei explicar a comoção que senti. Já vi muitas mulheres atraentes, pois esta cidade as tem em profusão, especialmente as que estão em trânsito. Nenhuma, porém, jamais me provocou semelhante abalo. A começar pelos olhos. Os olhos dos habitantes desta cidade, e também os das mulheres que a visitam, são cinza. (Este também é um fenômeno muito particular em Valparaíso, especialmente nos dias de chuva: todos têm os olhos cinza.) Nessa mulher, porém, seus olhos castanhos permaneciam castanhos. E brilhavam. Ela era bela e branca, e tinha uma suavidade que jamais vi em mulher nenhuma. Diminuí o passo e voltei. Fiquei no parapeito, à curta distância. Enquanto ela posava, lembrei de um poema de Neruda, um que diz assim: Há mais altas que tu, mais altas;/há mais puras que tu, mais puras;/há mais belas que tu, há mais belas./Mas tu és a rainha. O poema falava dela! Não foi preciso chegar mais perto para que seus olhos castanhos me enfeitiçassem definitivamente e para que tudo em redor ficasse ainda mais cinza. Permaneci imóvel, observando-a sorrir para a câmera, até que, minutos depois, ela partiu com o grupo que a acompanhava. Fiquei feliz por ver que ela não estava com ninguém em particular, mas fiquei triste por saber que isto de pouco me adiantaria, pois ela sequer me notara. (E, se notasse... eu era mais um tom de cinza na paisagem.) De qualquer modo, eu não a encontraria de novo, pois em pouco tempo, talvez naquele mesmo dia, ela já não estaria na cidade. Não pisaria mais as pedras de suas ruas, não apoiaria seus braços naquele parapeito, não encheria com a sua presença, com os seus olhos coloridos, a paisagem em preto-e-branco que é Valparaíso nos dias de chuva.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
QUALQUER ESQUINA
Dobrar numa esquina, em vez de seguir reto na rua, é fazer uma opção irremediável. Mesmo que você volte imediatamente, as circunstâncias que cercam seus passos serão outras: você poderia ter tropeçado da primeira vez, poderia ter encontrado um anel de ouro, poderia ter visto passar, dentro de um carro, uma pessoa conhecida. Claro, se você segue reto na rua, você também pode tropeçar, ou encontrar um anel de ouro, ou ver passar alguém conhecido num carro. Mas você não saberá disso a não ser que tropece, ou encontre um anel, ou veja passar esse alguém conhecido. A idéia é um lugar comum, eu sei. Todos já pensaram nisso. O fato, porém, é que poucos notam quando passa ao seu lado, e desfaz-se no ar, a vida que não foi escolhida. Fazer uma opção, qualquer que seja ela, é descartar milhares de acontecimentos que mudariam a sua vida. E é também, ao mesmo tempo, apegar-se a outros milhares de acontecimentos que mudarão a sua vida. Aliás, não fazer uma opção também é descartar milhares de acontecimentos e apegar-se a outros milhares. O que quer que você faça – ou não faça –, ocasionará a morte de infinitas possibilidades suas, algumas felizes, outras nem tanto. Essa sensação me ocorreu, fortíssima, um dia desses. Dobrei numa esquina e encontrei-me numa rua bonita, cheia de árvores. Havia pessoas sorrindo, havia uma brisa que soprava leve, havia um cachorro que abanava o rabo sem que se pudesse saber por quê. Mas ao dobrar na esquina ainda vi de relance a rua que deixei de percorrer, a rua em que até então eu vinha seguindo. Doeu-me saber (e era como uma saudade) que deixei de cruzar com alguém muito importante para mim, alguém a quem eu queria muito bem e que já não via fazia muito tempo. A sensação era forte demais para não ser verdadeira. Ou então era verdadeira só porque era forte demais. Naquela rua em que não segui havia perigos, claro, e coisas ruins que foram evitadas. Mas a rua em que entrei ao dobrar a esquina, embora pudesse trazer-me alguém que me alegrasse a vida, também tinha seus perigos. Algumas pessoas, ouvindo isso, podem dizer, simploriamente: “Então tanto faz. Se no final tudo tem seu lado bom e ruim, nunca há como saber o que é melhor ou pior, e uma esquina é só uma esquina”. É um pensamento lógico, mas pobre. Certamente nunca saberemos o que deixamos para trás, ou o que encontraremos pela frente. Podemos até imaginar o que perdemos ou evitamos, ou o que vamos conquistar ou sofrer, e essa imaginação nunca entrará no mundo do real, do vivido. Esse é o pensamento corrente – pobre e triste. Instiga-me mais imaginar que é possível ver ao nosso lado, por fugazes instantes, a vida que não escolhemos. Ela é sempre fascinante, e mesmo que alguns considerem tola a pergunta que surge nesses momentos, ainda assim ela se impõe e me comove: como teria sido?
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
MINHA RUA
Minha rua foi feita apenas para mim. É certo que outros já a viram, e é certo que outros passaram por ela. É mesmo certo – embora isso me surpreenda – que outros tenham morado nela. Mesmo estes, porém, nunca souberam o modo correto de vê-la ou habitá-la. Hoje, como num espaço encantado, apenas eu vivo nela, e sinto e aprecio coisas que ninguém nunca apreciou ou sentiu. Nela, por exemplo, sopra uma brisa constante, quase como uma carícia, e a cada manhã canta um pássaro diferente. À noite, quando a lua a torna ainda mais clara do que ela é, e eu a percorro com sua silenciosa permissão, suas curvas me falam de aconchego e cuidado. Ela tem um cheiro que nenhuma outra rua tem, um cheiro que a torna ainda mais particular quando das flores que nela crescem emana um aroma que não é de nenhuma outra flor e que enche as minhas noites. É durante as noites, aliás, que sinto com mais força a sua presença. Deitado na minha cama, ou escrevendo diante da janela aberta, sinto que minha rua toma conta de mim. Agora mesmo, enquanto escrevo, sinto que ela ainda não dorme. Ela me faz companhia, e só dormirá quando eu dormir. Daqui a pouco levantarei para fazer chá. Esperarei na cozinha até que a água ferva. Enquanto o fizer, pensarei nela, e ela estará pensando em mim. Aliás, ela não estará apenas pensando em mim, mas estará comigo na cozinha, enquanto espero o chá ficar pronto, e estará comigo quando eu atravessar a sala de volta para o meu gabinete, onde agora escrevo. Sei que é difícil de entender, mas minha rua entra pela porta de minha casa. Eu vivo nela, e ela, por um prodígio que desconheço, vive comigo aqui dentro. Lembro bem do dia em que a vi pela primeira vez: admirei sua discrição, sua suave arquitetura, a leveza de suas linhas. Na época não formulei o pensamento, mas intuí algo que hoje eu traduziria assim: acho que vou morar aqui. Não sei por que, mas era como se eu já soubesse que ela me esperava, e que tinha sido feita, com todo o cuidado, apenas para mim.