Era uma manhã fria e nevoenta, e nós havíamos atravessado razoavelmente incólumes a noite de festa e barulho. Sentados na areia, diante do mar encapelado, estávamos silenciosos. Com um suspiro, ela se voltou para mim e disse, sua voz abafada pelo barulho das ondas: “Quem já não teve vontade de partir, não é?” Não entendi e olhei para a linha do horizonte. Busquei algum navio distante, algum solitário ponto perdido na junção entre a linha do céu e do mar. Não vi nada, a não ser uma tênue faixa branca à distância – os arrecifes escondidos sob a superfície da água. Como eu não sabia o que dizer, com o olhar encorajei-a a prosseguir. Ela continuou. Disse que às vezes tinha vontade de partir – não de morrer, frisou, mas de partir. Ir para algum lugar distante, longe de tudo: longe dos telefonemas importunos, das festas às quais tinha que ir, mesmo sem vontade, longe dos perguntadores profissionais, dos chatos empedernidos, do trabalho maçante, da solidão dos finais de semana, longe da traição, da violência, das coisas que não deram certo e das que não dariam de jeito nenhum – pois ela sabia, pelo menos na vida dela, quais eram estas coisas –, longe do passado, todo e qualquer passado, bom ou ruim... E nesse ponto a interrompi: objetei que era impossível fugir do passado. Das outras coisas, sim, era possível escapar, mas não do passado. Ela me ouviu, pois fez uma expressão de assentimento, mas continuou em seu devaneio: tinha que partir deixando saudade nos outros, nos que lhe eram caros mas a magoaram. Não tinha graça partir se os outros não sentissem sua falta. Tinha que deixá-los queimando, em fogo lento, na dor viva da ausência. Eu sorri, interrompendo-a mais uma vez: “Mas isso é vingança!”. “Claro que é!”, ela concordou. Disse que quando a gente tem vontade de partir desse jeito é porque está magoada – com o mundo ou com certas pessoas –, e quer retribuir, de alguma forma, a dor que sente. “Ao mesmo tempo”, ela me disse com um sorriso triste, “a gente quer esquecer que algo em nós dói. A dor que fique só pra eles – ou para o mundo.” E aí me falou como seria bom partir para lugares distantes: uma aldeiazinha nos confins do Tibete, uma vila no sul da Itália, uma ilha no mar do Caribe, o anonimato da multidão em Hong Kong, uma cidadezinha nos andes, uma estância nos pampas, um chalé nos alpes, um oásis no Saara, uma tenda no Atacama... Livre e feliz, esquecida da dor e isolada do mundo. Era assim que ela gostaria de viver. Mas não sempre e não para sempre, ela me garantiu, talvez para não me assustar com o seu escapismo. Eu não estava assustado, porém. Na verdade concordava com ela: quem já não tinha sentido vontade de partir? Eu também já tinha sentido essa vontade louca. Mas de maneira prática, pouco poética, eu criara um método eficaz para afastar esses devaneios: eu considerava o lado prático das coisas. Ela, por exemplo, ignorava o frio, o calor, a solidão e o perigo que existiam em todos esses lugares idealizados. Eu os tinha bem presentes, e eles eram minha âncora. Mas eu conhecia o verdadeiro intuito dela, sabia que ela só queria paz, sossego e proteção, não importava onde. Olhei para ela de um modo mais intenso, mas ela não me via. Seus olhos estavam fixos no horizonte. Eu disse: “O bom seria que houvesse uma estação de trem ou algo parecido, onde a gente pudesse chegar e dizer: – Me dá um bilhete para a distância. Então o caixa escolheria, ele mesmo, o lugar para onde iria nos mandar, e esse lugar seria sempre bom, sempre seguro, sempre bonito.” Esperei sua reação a esta minha fantasia infantil, mas ela não disse nada, nem me olhou. Não me incomodei. Ela parecia ter partido.
sábado, 17 de maio de 2008
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