Nessa época do ano há um certo vento que sopra do Atlântico e se mete ruas e casas adentro, ali, logo depois que se dobra a curva da Ponta Verde em direção a Cruz das Almas. Não sei se em outros lugares da cidade é possível senti-lo. Talvez no Farol, que é mais alto. De qualquer maneira, pode ser que não seja o mesmo vento. Pode ser outro, um vento irmão. O que sei é que este vento de que falo (ele deve ter um nome, mas o meu conhecimento não alcança tanto) é dado a fazer traquinagens. Abra a porta do carro na direção contrária a ele... e ele a escancara como se a quisesse quebrar. Pior: abra a porta do carro na direção dele... e ele rompe-lhe a canela, fechando a porta enquanto você tenta sair. É preciso cuidado com este moleque crescido. Ele adora assanhar os cabelos, mesmo os fixados com gel. É chegado a levantar saias de moças (e de mulheres mais maduras também, que ele não tem preconceito). Tem o mau vezo de roubar os papéis às mãos incautas. Adora salpicar de areia os carros recém lavados. E, claro, não pensa duas vezes antes de enfiar ciscos nos olhos dos outros. Mesmo assim, com toda esta molecagem (ele já quis quebrar a porta do meu carro várias vezes, e já me assanhou tanto o cabelo que já não me preocupo em penteá-lo), confesso que o admiro. Admiro sua força e sua personalidade, que aparecem mais no começo da tarde e à noite. Agora mesmo, enquanto escrevo sobre ele, balança-me os vidros da janela e assobia. Está certo, meu irmão, eu sei que você está aí. Chegou e vai passar o verão inteiro assobiando e fazendo molecagens. Puxe cadeira. Entre a sua palração e o silêncio do mormaço, acho que todo mundo prefere você. Mas comporte-se um pouco. Puxe cadeira e assente-se, que conversando a gente se entende.
sábado, 6 de dezembro de 2008
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