quinta-feira, 5 de junho de 2008
OS LUGARES DA INFÂNCIA
O BILACÃO
Era um fervedouro de facínoras. Acho que foi lá que entrei em contato com a malandragem humana pela primeira vez. Foi lá que descobri que, se queria viver no mundo, tinha que ser esperto. Pois bem, o Bilacão era um campinho de terra batida que ficava na rua Olavo Bilac, perpendicular à Pedro Correia, onde eu morava. Comecei a freqüentá-lo quando tinha uns doze anos, louco para jogar bola, e me deparei com uma variada fauna de malandros, todos mais velhos que eu. Foi no Bilacão, para citar apenas um exemplo, que vim a conhecer aquele deslocamento tão comum, aquele toque de ombros tão doce, tão inocente, que um jogador dá no outro quando estão lado a lado – o chamado “encosto”. Foi assim: eu conduzia a bola em desabalada carreira pela lateral direita, pronto para fazer um cruzamento; com o rabo do olho, vi quando um dos facínoras se aproximou de mim, pela minha esquerda. Imediatamente suspeitei de algo. Então o dito-cujo emparelhou comigo e, singelamente, como se não quisesse nada, encostou seu ombro ao meu, fazendo um leve movimento para a frente. Fui lançado, sem bola e aos tropeções, para a linha lateral. De imediato, furibundo mas triunfante, gritei: “Falta!”. Os outros jogadores, inclusive os do meu time, me olharam como se estivessem vendo um animal pré-histórico – e não disseram nada. Como ainda havia alguma humanidade no mundo, o próprio facínora que tinha me deslocado tratou de iluminar a minha ignorância. Parou, o pé sobre a bola, e explicou: “Falta? Tá doido?! Isso foi um encosto!” Falou como se fosse a coisa mais banal do mundo. Então voltou-se para a frente, para o seu campo de ataque, e fez um lançamento primoroso.
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