quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

MINHA RUA


Minha rua foi feita apenas para mim. É certo que outros já a viram, e é certo que outros passaram por ela. É mesmo certo – embora isso me surpreenda – que outros tenham morado nela. Mesmo estes, porém, nunca souberam o modo correto de vê-la ou habitá-la. Hoje, como num espaço encantado, apenas eu vivo nela, e sinto e aprecio coisas que ninguém nunca apreciou ou sentiu. Nela, por exemplo, sopra uma brisa constante, quase como uma carícia, e a cada manhã canta um pássaro diferente. À noite, quando a lua a torna ainda mais clara do que ela é, e eu a percorro com sua silenciosa permissão, suas curvas me falam de aconchego e cuidado. Ela tem um cheiro que nenhuma outra rua tem, um cheiro que a torna ainda mais particular quando das flores que nela crescem emana um aroma que não é de nenhuma outra flor e que enche as minhas noites. É durante as noites, aliás, que sinto com mais força a sua presença. Deitado na minha cama, ou escrevendo diante da janela aberta, sinto que minha rua toma conta de mim. Agora mesmo, enquanto escrevo, sinto que ela ainda não dorme. Ela me faz companhia, e só dormirá quando eu dormir. Daqui a pouco levantarei para fazer chá. Esperarei na cozinha até que a água ferva. Enquanto o fizer, pensarei nela, e ela estará pensando em mim. Aliás, ela não estará apenas pensando em mim, mas estará comigo na cozinha, enquanto espero o chá ficar pronto, e estará comigo quando eu atravessar a sala de volta para o meu gabinete, onde agora escrevo. Sei que é difícil de entender, mas minha rua entra pela porta de minha casa. Eu vivo nela, e ela, por um prodígio que desconheço, vive comigo aqui dentro. Lembro bem do dia em que a vi pela primeira vez: admirei sua discrição, sua suave arquitetura, a leveza de suas linhas. Na época não formulei o pensamento, mas intuí algo que hoje eu traduziria assim: acho que vou morar aqui. Não sei por que, mas era como se eu já soubesse que ela me esperava, e que tinha sido feita, com todo o cuidado, apenas para mim.

Um comentário:

Unknown disse...

Sou leiga no assunto, mas talvez por isso consiga ver algumas coisas que não iriam emocionar um expert. Achei o texto simplesmente lindo e bem escrito. De uma singeleza e doçura incontestável. Me deu vontade de ser a rua, ou morar nela.

Bjos

Regina Oliveira