Chegará um tempo em que as mais tolas lembranças nos comoverão: a disposição das cadeiras na sala; a pintura da janela descascando; o mato crescendo no quintal; a rachadura na calçada; a sombra em diagonal na varanda; o nó da rede; o rangido da porta do quarto; a marca no braço do sofá; a sujeira embaixo do fogão; o emaranhado dos fios atrás do móvel; o som da chuva sobre as telhas; o filtro no canto da pia; os porta-retratos empoeirados... Quando nada mais disto existir, a não ser em nossas lembranças, esse será o tempo de se comover. Tal é a ordem natural das coisas. Esse será também o tempo em que a imagem que temos de nós mesmos já não existirá, a não ser em velhas fotografias. E, apesar de tudo, continuaremos a pensar em nós como aqueles conhecidos na foto, sorridentes e confiantes, pois não somos, não podemos ser jamais, os estranhos do outro lado do espelho, com rugas cada vez mais pronunciadas e cabelos cada vez mais brancos.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
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Um comentário:
é quando o amanhã chega e nos faz nossos avós.
comover-se com tudo vem junto com cabelos brancos, né?!
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