domingo, 27 de abril de 2008
O CASTELO
Não sei que poeta, escritor ou filósofo disse que o inferno é a ausência da pessoa amada. Lembrei da frase quando li sobre a vida do conde D'Armand, que, impedido de viver com a mulher que amava, a plebéia Monique d'Lavrier, mandou construir um castelo no alto do monte Aros para lá viver, em solidão e desespero, o resto de seus dias. Parece – pois nada é certo nesta história, exceto que ele realmente construiu o castelo e morou nele até a morte – parece que foi o pai da moça quem impediu o casamento. Não é novidade para ninguém que os plebeus incentivavam o casamento de seus filhos com a nobreza. Não poderia haver maior sorte para eles. Neste caso, porém, o pai não só não incentivou o casamento como usou de todos os recursos (diz-se, mas não se comenta quais) para impedi-lo. Talvez tenha sido por vingança, pois aparentemente seu pai, o avô da moça, teria sido morto pelo avô do conde. De qualquer maneira, esta é apenas uma das hipóteses. Uma outra, tão corrente quanto esta, conta que foi a moça quem não quis casar com o conde, que era narigudo e fanho. Uma terceira, mas esta bem menos aceita, diz que a moça chegou a casar com o conde, mas fugiu dias depois, com um cavalariço. O fato é que o conde viveu o resto dos seus dias no castelo, sozinho e praticamente incomunicável. A construção, por sinal, era um bem urdido mistério. Era, na verdade, um castelo dentro de um castelo dentro de um castelo. Os que o visitaram (poucos) disseram que era impossível saber-se exatamente quando terminava a realidade e começava a ilusão. A coisa acontecia do seguinte modo: atravessado o portão principal, o visitante via-se num imenso jardim; ao percorrê-lo, acabava atravessando um novo portão e um novo jardim, idênticos aos primeiros até no tamanho. O visitante continuava o tormentoso passeio até chegar ao interior do castelo, onde começava uma nova ilusão: atravessava-se salas que davam para salas que davam para salas, todas idênticas, e percorria-se corredores que davam para corredores que davam para corredores, todos exatamente iguais. O mesmo acontecia com os quartos e com os outros aposentos. E o detalhe mais inquietante: todas as áreas – jardins, salas, corredores, quartos –, rigorosamente todas, tinham o mesmo tamanho. Como colocar um caixa dentro de uma caixa sem diminuir-lhe o tamanho? Essa era a pergunta que todos se faziam, sem nunca obter resposta. O castelo já não existe mais: foi completamente destruído pelos turcos há duas centenas de anos. Somente o relato atônito dos que o visitaram preserva a sua memória. Na verdade, também há trechos de uma suposta carta escrita pelo conde, não se sabe exatamente quando, talvez poucos meses antes da invasão, e que diz assim: “Este é o meu lar, o espelho de minha alma, opulenta e vazia. Seus muitos quartos são tão estéreis quanto meu coração, e não convido ninguém para habitá-los. Podem, os que quiserem, percorrer minha morada, mas sem o meu consentimento. De todo modo, eu não os impediria, pois nada me importa senão [aqui inicia-se um longo trecho ilegível. O trecho seguinte é o final da carta]. Os que conhecem minha história já estão, por esta época, todos mortos. Os que vierem a conhecê-la, só o farão de modo imperfeito. De qualquer modo, também isto pouco me importa. Importa antes o matiz do sol da manhã em cada uma das janelas da ala oeste, que são tantas que nem mesmo eu conheço o seu número; importa antes o tamanho da lua nas janelas da ala sul, que se pintam de laranja quando é lua cheia. Ainda assim, penso, nada importa em demasia. O sol e a lua me consolam, mas nada me alegra. Já é tempo de tudo acabar-se, e rogo que se acabe logo.” Estes trechos contraditórios revelam, certamente, um espírito atormentado. Os especialistas afirmam que não é possível dizer com certeza se a carta é realmente do conde, mas consideram plausível a possibilidade. Todos concordam, evidentemente, em que o conde, ou quem escreveu a carta, passava por grande sofrimento. Nem todos, porém, são unânimes (somente os mais românticos) em dizer que o castelo representava não só o vazio da alma do conde, mas uma das constantes da vida: o amor que se perde. Dizem estes mais românticos: todos enfrentam esta constante, e todos a sofrem do mesmo modo. Mesmo os que a sofrem mais de uma vez a enfrentam como se fora sempre a primeira. É como sair de um quarto e entrar em outro, ambos idênticos. Ou sair de um corredor e entrar em outro, em tudo iguais. Constantemente.
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