sábado, 13 de dezembro de 2008

CEM ANOS DE SOLIDÃO

E porque eu falei da chuva lembrei de Cem Anos de Solidão. Não sei se você já leu. Se não leu, deve ler agora. Pare tudo o que estiver lendo e comece a ler. Algumas páginas de estranhamento são naturais, talvez as trinta primeiras. Mas depois você entra naquele mundo e não quer mais sair. Quando sai, no final do livro, fica com pena. É uma das revelações literárias da minha vida. Algo mudou em mim, e pra melhor, depois que li Cem Anos de Solidão. Quantos momentos bons lendo o livro! Ah, e por falar nisso, a chuva! Há um capítulo no livro que começa assim: “Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias.” Esse capítulo desperta em mim não sei que emoções indefiníveis. Talvez porque na época em que li o livro tenha chovido com certa regularidade (não tenho certeza, mas me lembro de algumas chuvas). De qualquer modo, o capítulo inteiro, como todo o livro, é um deslumbre. Veja esta passagem: “O ruim era que a chuva atrapalhava tudo e as máquinas mais áridas brotavam em flores por entre as engrenagens se não fossem lubrificadas de três em três dias, e se enferrujavam os fios dos brocados, e nasciam algas de açafrão na roupa molhada. A atmosfera estava tão úmida que os peixes poderiam entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentos.” Esse clima de irrealidade, tão estranho para quem começa a ler o livro, rapidamente se solidifica e passa a ser a única realidade possível enquanto o livro está aberto. E toda vez que você fecha o livro e olha ao redor, e pensa nos seus compromissos, nas coisas chatas que tem que fazer, você percebe o quanto é sem graça a realidade de verdade. E aí você quer voltar ao livro, quer acompanhar a saga dos Buendía, quer viver em Macondo, quer que aquilo dure para sempre. Já li o livro duas vezes, com intervalo de anos entre elas. Agora pretendo ler uma terceira vez, mas no original. Não domino o idioma espanhol, mas acho que com boa vontade e um dicionário razoável é possível penetrar novamente naquele universo, cheio de mistérios e encantamento desde a primeira frase: “Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.”

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