sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

VALPARAÍSO

Em Valparaíso é assim: depois que chove, o ar se enche de gotículas minúsculas que saturam a atmosfera e lhe dão uma consistência aquosa. Algumas pessoas, insensíveis às mudanças climáticas, não notam a diferença, e vivem o dia na forma convencional de todos os dias. As que notam, porém, sentem-se como se estivessem imersas numa substância diversa, algo que não é ar nem água. Nesses dias, não bastasse isso, o céu parece baixar em direção à terra, e tudo se cobre de cinza e frio. É sempre assim quando chove em Valparaíso, e isso me incomoda. Houve um dia, porém, em que a chuva, o frio e a opressão do céu nublado de Valparaíso não me incomodaram. Eu caminhava em direção ao porto, sentindo no ar a doce azáfama da movimentação diária dos navios e dos guindastes descarregando contêineres. Apressado, passei por turistas que, num mirador, posavam para fotos. Já seguia em frente quando, não sei por que, me voltei para uma mulher que posava junto a um parapeito. Até hoje não sei explicar a comoção que senti. Já vi muitas mulheres atraentes, pois esta cidade as tem em profusão, especialmente as que estão em trânsito. Nenhuma, porém, jamais me provocou semelhante abalo. A começar pelos olhos. Os olhos dos habitantes desta cidade, e também os das mulheres que a visitam, são cinza. (Este também é um fenômeno muito particular em Valparaíso, especialmente nos dias de chuva: todos têm os olhos cinza.) Nessa mulher, porém, seus olhos castanhos permaneciam castanhos. E brilhavam. Ela era bela e branca, e tinha uma suavidade que jamais vi em mulher nenhuma. Diminuí o passo e voltei. Fiquei no parapeito, à curta distância. Enquanto ela posava, lembrei de um poema de Neruda, um que diz assim: Há mais altas que tu, mais altas;/há mais puras que tu, mais puras;/há mais belas que tu, há mais belas./Mas tu és a rainha. O poema falava dela! Não foi preciso chegar mais perto para que seus olhos castanhos me enfeitiçassem definitivamente e para que tudo em redor ficasse ainda mais cinza. Permaneci imóvel, observando-a sorrir para a câmera, até que, minutos depois, ela partiu com o grupo que a acompanhava. Fiquei feliz por ver que ela não estava com ninguém em particular, mas fiquei triste por saber que isto de pouco me adiantaria, pois ela sequer me notara. (E, se notasse... eu era mais um tom de cinza na paisagem.) De qualquer modo, eu não a encontraria de novo, pois em pouco tempo, talvez naquele mesmo dia, ela já não estaria na cidade. Não pisaria mais as pedras de suas ruas, não apoiaria seus braços naquele parapeito, não encheria com a sua presença, com os seus olhos coloridos, a paisagem em preto-e-branco que é Valparaíso nos dias de chuva.

Um comentário:

Unknown disse...

Não sei "o porque", mas quero sempre ser os personagens de seus textos.
Bjos

Regina