terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

QUALQUER ESQUINA

Dobrar numa esquina, em vez de seguir reto na rua, é fazer uma opção irremediável. Mesmo que você volte imediatamente, as circunstâncias que cercam seus passos serão outras: você poderia ter tropeçado da primeira vez, poderia ter encontrado um anel de ouro, poderia ter visto passar, dentro de um carro, uma pessoa conhecida. Claro, se você segue reto na rua, você também pode tropeçar, ou encontrar um anel de ouro, ou ver passar alguém conhecido num carro. Mas você não saberá disso a não ser que tropece, ou encontre um anel, ou veja passar esse alguém conhecido. A idéia é um lugar comum, eu sei. Todos já pensaram nisso. O fato, porém, é que poucos notam quando passa ao seu lado, e desfaz-se no ar, a vida que não foi escolhida. Fazer uma opção, qualquer que seja ela, é descartar milhares de acontecimentos que mudariam a sua vida. E é também, ao mesmo tempo, apegar-se a outros milhares de acontecimentos que mudarão a sua vida. Aliás, não fazer uma opção também é descartar milhares de acontecimentos e apegar-se a outros milhares. O que quer que você faça – ou não faça –, ocasionará a morte de infinitas possibilidades suas, algumas felizes, outras nem tanto. Essa sensação me ocorreu, fortíssima, um dia desses. Dobrei numa esquina e encontrei-me numa rua bonita, cheia de árvores. Havia pessoas sorrindo, havia uma brisa que soprava leve, havia um cachorro que abanava o rabo sem que se pudesse saber por quê. Mas ao dobrar na esquina ainda vi de relance a rua que deixei de percorrer, a rua em que até então eu vinha seguindo. Doeu-me saber (e era como uma saudade) que deixei de cruzar com alguém muito importante para mim, alguém a quem eu queria muito bem e que já não via fazia muito tempo. A sensação era forte demais para não ser verdadeira. Ou então era verdadeira só porque era forte demais. Naquela rua em que não segui havia perigos, claro, e coisas ruins que foram evitadas. Mas a rua em que entrei ao dobrar a esquina, embora pudesse trazer-me alguém que me alegrasse a vida, também tinha seus perigos. Algumas pessoas, ouvindo isso, podem dizer, simploriamente: “Então tanto faz. Se no final tudo tem seu lado bom e ruim, nunca há como saber o que é melhor ou pior, e uma esquina é só uma esquina”. É um pensamento lógico, mas pobre. Certamente nunca saberemos o que deixamos para trás, ou o que encontraremos pela frente. Podemos até imaginar o que perdemos ou evitamos, ou o que vamos conquistar ou sofrer, e essa imaginação nunca entrará no mundo do real, do vivido. Esse é o pensamento corrente – pobre e triste. Instiga-me mais imaginar que é possível ver ao nosso lado, por fugazes instantes, a vida que não escolhemos. Ela é sempre fascinante, e mesmo que alguns considerem tola a pergunta que surge nesses momentos, ainda assim ela se impõe e me comove: como teria sido?

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