Não há dúvida de que o improvável acontece. Aliás, o improvável costuma acontecer com regularidade desconcertante. O caso é que nunca estamos preparados para ele. Achamos que as coisas têm de obedecer a uma certa ordem que nós, deuses arrogantes, traçamos e decidimos que tem de ser cumprida. O pior é que em geral não acontecem como queremos, ou acontecem muito pouco. E no entanto insistimos em desenhar nossas rotas, mesmo intuindo que a vida tem seus próprios caminhos – e que os impõe a nós sem piedade. Na maioria das vezes, essas coisas nos desgostam. Mas há situações em que elas podem ser muito agradáveis. Deu-se um destas comigo. Eu estava em Tóquio a trabalho e, numa noite de insônia, havia decidido procurar um bar onde pudesse passar o tempo. Entrei no primeiro que me apareceu pela frente, e que apenas por milagre percebi. Era um bar obscuro, escondido atrás de uma fachada anódina e sem graça. Não havia placa ou letreiro, de modo que até hoje não sei seu nome. A única coisa que me chamou a atenção, e foi o que afinal me fez entrar, foi um sujeito que dormia, com expressão beatífica, escorado na porta. Dentro do bar havia muita fumaça de cigarro, e pairava sobre as mesas um rumor surdo, de homens conversando em voz baixa, como se conspirassem. O lugar tinha uma atmosfera que, se se tratasse de um filme policial, poderia ser considerada no mínimo suspeita. Sentei-me ao balcão e, depois de meia hora lá dentro, não tinha visto nada que alimentasse minhas especulações. De costas para o palco, eu observava o modo como o barman atendia os clientes, fazendo-lhes caretas e emitindo murmúrios. Estava tentando compreender o que o homem dizia, quando ouvi um som indistinto vindo do palco: um instrumento de sopro, que se elevava por entre o burburinho e produzia um som que eu já tinha ouvido algumas vezes havia muito tempo. Voltei-me, mas, por causa da fumaça, não pude ver nada que estivesse a mais de um palmo do meu nariz. Deixei o balcão, passei por entre as mesas e cheguei à beira do palco. Um instrumento de sopro já era algo improvável num bar como aquele, mas mais improvável ainda era que o instrumento fosse um oboé. Não bastasse isso, atônito, eu constatei que conhecia aquela moça que, sozinha no palco, tocava de olhos fechados. Havíamos sido, no passado, o que se pode chamar de amigos íntimos. Assisti ao show sem que ela me visse. Quando desceu do palco, depois de meia hora de apresentação etérea, rarefeita, surpreendi-a com a minha aparição fantasmal. Passado seu susto, convidei-a para sentar a uma mesa que tinha acabado de ser desocupada, no canto do bar, e intimei-a a me fazer o relato da cadeia de acontecimentos que a tinham levado até ali. Depois de me reafirmar seu improvável amor pelo oboé, que eu conhecia desde o começo, ela me contou que estava morando em Tóquio havia pouco mais de um ano e que não falava quase nada de japonês. Isso não me surpreendeu. Aliás, nada mais naquela noite me surpreenderia. Mas comoveu-me imaginar, por outro lado, sua solidão de estrangeira analfabeta, e os malabarismos que teve de fazer para ser compreendida. Ela me disse que viera a convite do dono do bar, um japonês louco e cabeludo que durante algum tempo tinha morado em nosso país e que a conhecera numa apresentação. Tinha vindo com a cara e a coragem – mais com cara do que com coragem, pois o medo fora muito e grande. Na época, porém, não lhe restava alternativa: não tinha trabalho nem perspectiva de, e havia acabado de sair de um relacionamento que havia lhe tirado tudo, inclusive a alegria. Nada melhor, ela se disse frouxamente, do que viver num país distante. E era feliz agora, mesmo que ninguém prestasse atenção ao seu oboé. Escutei sua história em silêncio, e depois, em dois minutos, contei-lhe o rumo que a minha vida tinha tomado desde a última vez em que nos víramos. Nada que merecesse nota, assegurei. Depois de conversarmos quase toda a noite, propus-lhe que passeássemos pela cidade. Saímos para o frio da madrugada e começamos a andar devagar. Quando chegamos à Estação Shibuya, com seus enormes edifícios de letreiros luminosos, lembrei-me imediatamente de Nova York, e fiz o comentário óbvio: “Esta é a Times Square de Tóquio”. Minha amiga sorriu e disse que nunca tinha ido a Nova York, mas que obviamente tinha visto em fotos a Times Square. E completou: “Hoje toda cidade tem uma dessas”. Era verdade. Todas as cidades estavam começando a se parecer umas com as outras. Andamos durante muito tempo, às vezes de mãos dadas, às vezes enlaçados. Não queríamos mais que isso. Bastava-nos a nossa companhia nesse país estrangeiro e distante. Bastava a feliz coincidência de estarmos juntos. Houve um momento em que ela, distraída, quedou-se a contemplar os letreiros, as imagens miríficas estampadas nos edifícios. Eu a observei discretamente, e pude ver o brilho das luzes em seus olhos, pude ver o vento acariciando-lhe os cabelos negros, pude ver sua testa altiva. Era bela, a minha amiga. E por um desses acasos da vida, eu e ela parecíamos, naquele momento, a perfeita companhia um para o outro.
sábado, 29 de março de 2008
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