segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

DA MINHA ALIENAÇÃO

Antes eu tinha vergonha. Agora não tenho mais: não gosto de jornais, não gosto de política, não gosto de economia. Detesto politicagem e simplesmente ignoro (ou tento ignorar, pois nem sempre é possível) quem foi ou vai ser processado por tal ou qual crime político, ou quem vai assumir a cadeira de fulano, caso sicrano dê com a língua nos dentes e destrua não sei quantas carreiras políticas até ontem sólidas. Se sei alguma coisa sobre política e economia é porque de um modo ou de outro gosto de letras, palavras e de coisas bem escritas. Se o artigo é bem escrito, então eu leio. A História me fascina; a Filosofia também. E também a Filosofia Política, e a História Econômica, mas apenas pela carga de literatura de não-ficção que eles contêm. Não sei se me explico bem. Se o texto ou livro é bem escrito, então a coisa me interessa. E aí é uma delícia saber de História, Filosofia, Economia, o que for. Mas não me pergunte quando foi a última vez que eu comprei o jornal local para saber das notícias, não me pergunte se puxei conversa para saber das últimas da politicalha. Não gosto, não quero nem ouvir. Mas ouço rádio, admito. Especialmente a CBN e a Jovem Pan AM. Não me pergunte por que, pois não sei explicar. Outra coisa: houve uma época, na minha adolescência, em que copiei O Analfabeto Político, de Bertolt Brecht. Aliás, quase o emoldurei e o coloquei na parede. Era um credo para mim. Hoje, ao lê-lo, acho-o ridículo. Aquilo é de uma ingenuidade (ou, como suspeito às vezes, de um ditatorialismo) sem fim. Que nos seja permitido ser analfabetos políticos; que nos seja dada a liberdade de ser analfabetos políticos, pois já não é possível mudar nada politicamente. Se dobro a esquina e escuto dois sujeitos conversando sobre política (especialmente a local, que me perece ainda mais repugnante), tenho, para comigo mesmo, um sentimento de alívio quase inexplicável. Não sou eu que estou ali, naquela xaropada. É quase como se eu me felicitasse por não pertencer a este mundo. Nessas horas, se me lembro do texto do Brecht, tenho vontade de rir. Não rio porque ainda há algum resquício de idealismo em mim, mas certamente não o idealismo ingênuo (ou mentiroso, ou inviável, ou risível) do texto.

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