Todos os dias acordo com a impressão de que ainda moro lá. Então levanto-me da cama sentindo-me um forasteiro e vou à janela olhar a paisagem. Sempre me surpreendo, pois a luz do sol tem um matiz diferente, e os rumores da cidade me parecem vindos de um país estrangeiro. Afasto-me da janela e digo para mim mesmo: Melhor cuidar da vida. E é o que faço todos os dias, mesmo sentindo que levo comigo, enquanto caminho pela cidade, tudo quanto fui e sou, a aldeia onde morei e já não moro mais, suas ruas de pedra, suas calçadas humildes, suas casas com janelas de madeira, sua praça e coreto. É verdade que sempre quis viver em Lisboa. É também verdade que, a certa altura de minha vida, sonhava com ela quase diariamente, e já podia me imaginar sentado no banco que tenho em frente à minha casa hoje, sob a árvore cujo nome até agora não conheço. Pois ali estão, à minha frente, a árvore e o banco, e, enquanto olho pela janela, posso ver-me sentado, a ler preguiçosamente, como faço quase todo sábado e domingo, e me vejo também a levantar os olhos para observar a gente que passa, lenta ou apressada, e o pardal que bica o chão, e o gato que se espreguiça, e, sobretudo, o movimento dos barcos no rio mais abaixo. É belo o Tejo. Vê-lo correr em sua marcha lenta é como ver o passado, as naus que seguiam rumo ao mar. O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. E Lisboa é, para mim, como o Tejo: bela e rica. Andar por suas ruas é sentir-se como num grande navio. Mas falta a Lisboa ser a minha aldeia. Isso ela nunca será. A minha aldeia vive para si mesma, não se projeta para além, e percorre minhas veias como outrora eu percorria suas ruas. De modo que sou um estrangeiro em Lisboa, e o serei para sempre. Sinto pena disto. Generosa, ela me ofereceu seus segredos, franqueou-me o estuário do seu rio. À entrada do Tejo pode-se ver o Mosteiro dos Jerônimos e suas torres góticas; à sua margem direita encontra-se a Torre de Belém, imponente como um mouro. Ambos me provocam estupor e fascinam, mas não me comovem. Comove-me antes a lembrança do coreto de minha aldeia, a praça quase vazia no final da tarde, quando o sol, oblíquo, punha um tom dourado em todas as casas, e as primeiras estrelas da noite invadiam o céu casto acima de nós.
domingo, 20 de janeiro de 2008
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Um comentário:
Meu caro,
Belíssimos textos, belíssimos pensamentos! Uma viagem poética, sem dúvidas. Uma viagem poética com acompanhante especial, ressalte-se. Parabéns, parabéns!
Um abraço.
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