O Natal é uma belíssima época. Para praticar penitência. É a época em que todos, conscientemente, escolhem sofrer e pagar seus pecados. Não há jejum ou privação que se lhe compare. Mas devo admitir: é também uma das épocas em que as pessoas mais entram em contato com Deus. Assim: “Ai, meu Deus, esqueci de comprar o presente de Fulano!” E lá vão elas correndo comprar o tal presente. E, no dia seguinte, lembram que esqueceram o presente de Sicrano. “Ai, meu Deus!”, e saem correndo de novo para comprar o presente. Tem também as quinhentas e cinqüenta confraternizações das quais as pessoas têm que participar (e, claro, não pode faltar o presentinho para o indefectível amigo secreto, de quem não se sabe se gosta de roupa, de livros ou de Cds). Estranho: esta era para ser, por excelência, a época da reflexão, da interiorização e da harmonia. Mas o fenômeno que se estabelece (evidentemente, não sou o primeiro a notar isso, nem a escrever sobre) é justamente o inverso. Vejo gente em peregrinação (a palavra é adequada) a dezenas de lojas, gente que está no último minuto para comprar os salgadinhos da confraternização da sexta-feira, gente que esqueceu de marcar o cabeleireiro, a manicure e a pedicure e agora se penitencia porque vai atrasar tudo, etc. Presentear as pessoas de quem se gosta é uma coisa boa, mas comprar dezenas de presentes para dar a todo mundo (“Ah, mas não são presentes, são só lembrancinhas”) é algo absurdo. Deixa de ser um prazer e vira um dever, e o que é pior: um dever cumprido às vezes de má vontade. Isso acontece não só em relação aos presentinhos, mas a quase todos os outros compromissos. O corre-corre é absoluto e inevitável. Todos estão atrasados para tudo. Mil coisas pendentes. Uma penitência, sem dúvida. Bem. Vai ver que isso é bom, faz bem à alma. Eu é que sou um bruto, um insensível. Quem já viu achar que um abraço e um simples voto de boas-festas têm o mesmo valor que presentes comprados com sacrifício e desprendimento?
sábado, 20 de dezembro de 2008
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