Ele me contou a história, banal como todas as histórias de adolescentes, uma noite em que nos encontramos a sós, bebendo num bar esquecido. Só a reproduzo aqui porque ela me fez pensar no adolescente que fui, tão diferente do adolescente que ele foi. Hoje, que já somos adultos, não me julgo muito diferente dele, mas há algo nele que nem eu nem meus outros amigos temos, e isso me inquieta. Talvez tenha a ver com esta sua história de adolescente ferido. Ele me disse, primeiro, que o tema musical de sua história era Late Night, Maudlin Street, de Morrissey. Disse que ouvia a canção todos os dias, ou melhor, todas as noites. Não sabe dizer se começou a ouvi-la antes ou depois de se apaixonar pela garota – sim, tinha que haver uma garota nesta história, mais velha que ele e nem tão bonita assim. Ele a conhecera por meio de amigos, quando estavam juntos naquilo que à época era o acontecimento de maior importância na vida social dos adolescentes da cidade: os Jogos da Primavera. Depois de apresentados, ela ficou ao seu lado nas arquibancadas e, com uma espontaneidade que o desconcertou, comentou os lances das partidas, os gols e pontos marcados, a performance dos atletas. A partir do dia seguinte, e sem combinação prévia, ele passou a levá-la para casa depois dos jogos, a princípio junto com os amigos, mas depois sozinho. Ficavam conversando na porta até que os pais a chamassem. Não demorou para que se tornassem amigos, ou o que ele entendia por tal, e demorou menos ainda para que ele se surpreendesse pensando nela todas as horas de todos os dias. Um dia, ao som de Late Night, Maudlin Street, e sem coragem de falar-lhe diretamente, escreveu para ela um bilhete apaixonado – um bilhete dorido e sincero, declarando o seu amor – e o enviou por uma amiga comum. Depois disso, ela desapareceu. Os jogos haviam acabado, e as visitas que ele fez à sua casa resultaram em desapontamento, pois ou ela havia saído ou estava estudando ou estava dormindo. Até hoje não consegue lembrar quem lhe disse o que havia acontecido, mas consegue lembrar a dor viva que sentiu: ela havia voltado para um antigo namorado que a abandonara. Como?, ele se perguntou, como ela podia ter feito uma coisa dessas? Então o amor dele não valia mais que o amor vagabundo de um cretino que a abandonara? O sujeito ia abandoná-la de novo, claro. Nesse ponto, ele sorriu e me olhou de um modo estranho. Disse: “Naquela época eu pensava que as coisas eram fáceis de resolver, eu pensava que era só colocar na balança os dois amores: o meu, puro e sincero, e o do outro, vagabundo e irresponsável. O meu pesaria mais, e ela me escolheria. Isso me parecia lógico. Mas essas coisas não têm nada a ver com a lógica”. Compreendi, então, o porquê de seu olhar estranho: ele sabia de meus amores. Sabia de minha facilidade com as mulheres, desde a adolescência. Sabia que quanto mais eu as fazia sofrer, mais elas pareciam se apaixonar. Baixei os olhos com fingida vergonha, mas no fundo com certo orgulho vão. Então ele concluiu sua história. Disse que tornou a vê-la algumas vezes, já na companhia do namorado. Disse que ela passava por ele e o cumprimentava como se não tivesse recebido bilhete nenhum, como se nunca tivesse conversado com ele, à porta de casa, noite após noite. Late Night, Maudlin Street continuava tocando em sua vitrola, e a paisagem noturna de sua rua, que ele via da janela do seu quarto, era tão desolada quanto a da música de Morrissey, que ele traduzia aos tropeções, com um dicionário chinfrim. Encheu seu copo, olhou para o meu, e pôs a garrafa sobre a mesa. Disse por fim, num tom de voz que até agora não sei definir se era de ironia ou de pesar: “O pior foi quando descobri que chamavam o cara de Macarrão. Pode, uma coisa dessas? Macarrão. Isso lá é apelido de alguém que mereça confiança?”
Um comentário:
Pô, o Macarrão? Essa mina está de brincadeira!!
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