O DANÚBIO
Quando os godos começaram assaltar as fronteiras do Império, forçando os romanos a encarar aquilo que seria o início do fim do seu poder, Marco Aurélio, o imperador filósofo, pôde intuir, solitário como apenas os imperadores podem ser, o futuro negro que se avizinhava. Embora detestasse a guerra, Marco Aurélio não pensou duas vezes antes de se expor, junto com seus soldados, aos rigores de oito campanhas de inverno nas gélidas ribanceiras do Danúbio, num esforço que, ao final, sequer valeu a pena, dada a infinita pertinácia dos invasores. Na verdade, o Império Romano começara a ruir havia já algum tempo, mas o processo era tão lento e, contraditoriamente, tão cheio de vitórias, que ninguém, nem mesmo os homens mais perspicazes da época, o puderam perceber. Depois da morte de Marco Aurélio, no entanto, a pax romana começou a declinar a olhos vistos e terminou por virar menção nos livros de História. Penso em todas estas coisas aqui, às margens do Danúbio, o rio que atravessa a minha cidade e a minha vida. Rio acima, rumo ao leste, travaram-se batalhas das quais hoje poucos se dão conta. Agora, confortavelmente instalado num luxuoso pub flutuante, contemplando o lento crepúsculo, sinto no ar o cheiro destas e de novas batalhas – estas últimas sem cortes, sem aço e sem sangue, mas igualmente trágicas. O Danúbio é famoso pela cor de suas águas, e é precisamente nessa hora, quando o sol vai declinando, que seu tom marrom cede lugar ao azul. À medida que a escuridão assume o lugar da luz, o Danúbio se concerta com o céu: é o começo da noite, é o começo da agonia. Pois os homens se agoniam à noite. Quando fecham a porta atrás de si depois do longo dia de trabalho, quando sentam para tirar os sapatos, quando encostam a cabeça no travesseiro, aí então é que começam a rolar os pensamentos, a princípio apenas rumorejantes, mas depois numa torrente, mostrando-lhes a dor, a solidão, o medo e o vazio. E os homens saem à noite. Vejo-os agora, seus rostos perplexos. Vejo-os ansiosos, seus olhos procurando o amigo que já vem, a amiga que está atrasada, o conhecido que possa ser uma vela na escuridão. E no entanto o Danúbio brilha. Suas duas margens estão cheias de luzes e de promessas que ninguém vê. Este casal que está ao meu lado, por exemplo. Não sei se são amigos. Podem ser amantes, podem ser namorados, podem ser um casal regulamentar. Estão tensos, mas não parecem estar brigando. Olham-se nos olhos amiúde, e sustentam o olhar. Eu os respeito por isso, pois há muito aprendi que esta é uma característica dos diálogos graves e importantes. Os dois não notam o rumor das águas, o brilho das luzes, o vôo dos pássaros noturnos. Não notam o estranho que os observa e tenta adivinhar o que lhes vai pela cabeça. Estão imersos em sua silenciosa batalha. Vou deixá-los em paz. Daqui a pouco o pub vai se encher de gente. Daqui a pouco todos os bares das margens, e os do centro da cidade, e os da periferia, vão se encher de gente. Daquela gente que, mais cedo ou mais tarde, mas sempre fatalmente, corre de suas casas como se lá vivesse um bicho. Eu os vejo e me compadeço deles, como me compadeço do soldado que pisa receoso o campo de batalha. E penso: e minha própria guerra, em que planície, em que monte, em que estuário ela se esconde?
Um comentário:
Pôxa, André, que viagem! Bom demais! A solidão do anoitecer é realmente de dar medo...
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