Mas talvez a culpa não seja do sistema (falo do tal sistema das conexões e relações, cujo nome eu nem conheço e sobre o qual generalizo barbaramente), mas do desprezo que se tem pelo ensino. Os professores, de um modo geral, não querem ensinar: ou são mal remunerados ou são ameaçados pelos alunos ou pelos pais deles, ou as duas coisas. Os donos das escolas particulares não têm outro interesse senão o lucro, pois estão num negócio e é natural que ajam como negociantes. Os alunos têm duzentas preocupações, entre as quais não está a de tirar uma boa nota. Os pais têm oitocentas preocupações, entre as quais não está a de exigir dos filhos um bom desempenho escolar. E assim vão todos empurrando com a barriga (e para o fundo do poço) a obrigação de produzir, ou pelo menos adquirir, conhecimento e cultura. Eu, que no máximo podia ser considerado uma aluno mediano, sabia “de cor” (talvez um dia a expressão seja banida, por ser politicamente incorreta) a tabuada inteira. E se me dessem uma frase, mesmo daquelas grandes, eu sabia decompor suas palavras, classificando-as em classes gramaticais, com detalhamento de número, gênero e grau, quando fosse o caso. De que isso me adiantou? Não sei ao certo, mas a necessidade de decorar pelo menos me ensinou a estudar e a ter disciplina. Eu me lembro que minha mãe tomava as lições comigo quase todos os dias. Se eu não aprendesse os afluentes da margem direita do Amazonas (Javari, Jutaí, Juruá, Tefé, Coari, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu) eu voltava pro quarto e só saía de lá quando tivesse aprendido. E isso acontecia quantas vezes fossem necessárias. Esses e outros métodos de ensino (e minha mãe me puxando a orelha) me deram alguns conhecimentos que considero indispensáveis, e que fazem parte da minha vida até hoje. Não sei se eu seria um aluno melhor com as novas técnicas educacionais. O que sei é que aprender a decorar (sem precisar do estímulo da palmatória) me foi muito útil. No final das contas, penso que a decoreba não era só um método: era uma filosofia.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
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Um comentário:
As escolas agora só ensinam "cidadania". Não vou dizer uma frase, mas bem que gostaria...
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