quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

MEUS MAIS SINCEROS VOTOS

Caro leitor: que neste Natal e no ano que se inicia você seja você mesmo, e que sinta muito orgulho disso, pois não há nada mais saudável do que bastar-se. Evite curvar-se às convenções, e pelo contrário: lance bananas solenes para o que o povo pensa ou vai pensar de você. Por falar nisso, diga sempre o que está pensando, no momento em que pensar: não deixe para depois (pois não é a mesma coisa) nem guarde lá dentro (porque não vai lhe fazer bem). Não faça nada de que não goste (nem por educação), e faça quase tudo de que goste, pois desde que você não machuque ninguém, é lícito desejar o que lhe der na telha. Respeite os seus interesses, pois eles são a essência mesma do seu caráter, e respeite-se, pois no final você vai prestar contas apenas a você mesmo e a Deus, caso acredite nele. Divirta-se, quando quiser e puder se divertir, e seja responsável também, mas não demais, que não é você quem vai salvar o mundo da bancarrota. Não dê muita ousadia a ninguém, exceto a você mesmo (mas, paradoxalmente, questione-se de vez em quando, pois as nossas idéias às vezes entortam). Considere como a mais perfeita das filosofias, a mais prática e útil, aquela de que tive notícia outro dia na internet: a filosofia do cavalo na parada de 7 de setembro – andando, cagando e sendo aplaudido. Por fim, previna-se contra todos os conselhos clichês de Natal e de Ano-Novo, especialmente estes meus, que, embora honestos, não são novos: ou você já os ouviu de alguém e os pratica, ou, se não o faz, é bastante crescido para assumir responsabilidade por isso, e eu o aplaudo. São os meus mais sinceros votos.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

POR FALAR EM POEMAS

E por falar em poemas, tem um de que gosto muito. É um dos mais simples que já li, e um dos que mais me tocou. Aliás, é importante não confundir as palavras simples e simplório. Simplicidade é coisa elevadíssima, que pouca gente consegue. A maioria de nós só alcança o simplório, e olhe lá. Portanto, evite subestimar o poema. Não esqueça de que ele está escondido por trás das palavras, e que vai se revelar mais cedo ou mais tarde. Ah, o poema é de Mario Quintana, e se chama Trecho de Diário. Ei-lo.


Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá.

Numa determinada pedra em certa rua de Calcutá.

Solta. Sozinha. Quem repara nela?

Só eu, que nunca fui lá,

Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento...

Minha pedra de Calcutá!

POEMAS

Um poema não se explica – quem quiser que o entenda, ou melhor, que o sinta. Pois poema também não é para ser entendido. O poema tem efeito retardado (alguém já disse isso). Ele é uma bomba-relógio. Ele não explode agora, mas depois. Você lê o poema, acha bonito e tal. Só que às vezes ele não acontece para você naquele momento. Ele acontece depois. E aí você lembra: Caramba, o poema! Agora mesmo me aconteceu de aplicar à vida um verso do Drummond: “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus./Tempo de absoluta depuração.” O bom é que eu não preciso lhe explicar por que o apliquei à vida: a minha maneira de usar o poema talvez não interesse a você. Você tem ou certamente vai ter a sua própria aplicação para o verso. Pode inclusive acontecer de você, agora, não achar nada demais nele. Mas lhe dou um conselho: guarde-o bem na memória, pois vai chegar uma hora em que você vai usá-lo. E ainda vai dizer: Rapaz, o Drummond tinha razão! Quer outro verso pra guardar, com possível aplicação no futuro? Vai este, do Quintana: “A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil/Aonde viessem pousar os passarinhos!”

domingo, 21 de dezembro de 2008

MUNDO ANIMAL

Não sei se você gosta de ver aqueles documentários sobre o mundo animal. Eu gosto. Dia desses atinei para algo – alguma verdade até então escondida. Sempre que dois animais acasalam (sejam felinos, chipanzés ou tartarugas), tenho a impressão de que a fêmea está absolutamente entediada. O macho dá umas resfolegadas ridículas, faz uns muxoxos sem graça, e às vezes morde o pescoço da fêmea. Esta, por sua vez, costuma assumir duas atitudes: ou olha para o horizonte, com ar de supremo desprezo pelo que está acontecendo mais acima, ou então demonstra viva chateação, por ter que suportar aquele importuno, com bafo de onça, babando sobre suas costas. Não é assim em todos os casos, claro: os cavalos-marinhos namorando são uma beleza. Mas as cenas me fizeram atinar para alguma verdade. Só não sei qual.

sábado, 20 de dezembro de 2008

NATAL

O Natal é uma belíssima época. Para praticar penitência. É a época em que todos, conscientemente, escolhem sofrer e pagar seus pecados. Não há jejum ou privação que se lhe compare. Mas devo admitir: é também uma das épocas em que as pessoas mais entram em contato com Deus. Assim: “Ai, meu Deus, esqueci de comprar o presente de Fulano!” E lá vão elas correndo comprar o tal presente. E, no dia seguinte, lembram que esqueceram o presente de Sicrano. “Ai, meu Deus!”, e saem correndo de novo para comprar o presente. Tem também as quinhentas e cinqüenta confraternizações das quais as pessoas têm que participar (e, claro, não pode faltar o presentinho para o indefectível amigo secreto, de quem não se sabe se gosta de roupa, de livros ou de Cds). Estranho: esta era para ser, por excelência, a época da reflexão, da interiorização e da harmonia. Mas o fenômeno que se estabelece (evidentemente, não sou o primeiro a notar isso, nem a escrever sobre) é justamente o inverso. Vejo gente em peregrinação (a palavra é adequada) a dezenas de lojas, gente que está no último minuto para comprar os salgadinhos da confraternização da sexta-feira, gente que esqueceu de marcar o cabeleireiro, a manicure e a pedicure e agora se penitencia porque vai atrasar tudo, etc. Presentear as pessoas de quem se gosta é uma coisa boa, mas comprar dezenas de presentes para dar a todo mundo (“Ah, mas não são presentes, são só lembrancinhas”) é algo absurdo. Deixa de ser um prazer e vira um dever, e o que é pior: um dever cumprido às vezes de má vontade. Isso acontece não só em relação aos presentinhos, mas a quase todos os outros compromissos. O corre-corre é absoluto e inevitável. Todos estão atrasados para tudo. Mil coisas pendentes. Uma penitência, sem dúvida. Bem. Vai ver que isso é bom, faz bem à alma. Eu é que sou um bruto, um insensível. Quem já viu achar que um abraço e um simples voto de boas-festas têm o mesmo valor que presentes comprados com sacrifício e desprendimento?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DO CANADÁ?

O Canadá não está nem aí pra nada, e nem vem chegando. Minto. O Canadá só está preocupado com o que verdadeiramente interessa: o bem-estar de sua população. Os canadenses não se preocupam em ganhar copas do mundo e não dão a menor pelota para os primeiros lugares nas olimpíadas. Não conheço nenhum grande escritor canadense nem nenhum grande músico. Será que há grandes atores? Políticos carismáticos? Houve algum Stálin canadense? Um Lincoln? Certamente deve haver gente boa e importante lá, grandes autores, músicos etc. Eu inclusive duvidava (o que prova a minha ignorância) que algum canadense tivesse ganho o Nobel. Acabei de quebrar a cara: fiz uma busca no Google e descobri vários vencedores do prêmio. Mas isso não importa. Ou melhor: importa, sim. O que eu estou querendo dizer é que o Canadá é um país fundamentalmente discreto e, talvez por isso mesmo, eficiente. Os canadenses não aparecem em canto nenhum, nem pra nada. Veja a guerra contra o terror. Alguém ouviu um pio do Canadá sobre o assunto? Enviou tropas para o Iraque? E agora, com a crise econômica mundial, alguém ouviu dizer que o Canadá quebrou, ou que alguma grande empresa canadense esteja em dificuldades? Parece que está sempre tudo muito bem por lá, e que os canadenses não estão nem um pouco preocupados com o mundo. E isso deve ser verdade, pois se aparece alguma pesquisa sobre índices de desenvolvimento humano ou sobre expectativa e qualidade de vida, o Canadá está lá, entre os primeiros da lista. É isso o que interessa pra eles. Às favas as pompas do mundo. Ninguém chama o Canadá pra nada, e eles não querem mesmo ser convidados. Os canadenses não gostam de pirotecnia, de enfeite. Pra eles, o mundo é uma festa pobre. Melhor ficar em casa.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

MARES DO ORIENTE

E se você partisse para os mares do Oriente, como os personagens de Conrad? Você nunca leu Joseph Conrad? Quase ninguém leu, não se preocupe. Mas me diga: não lhe parece que a expressão “mares do Oriente” tem algo de misterioso? Não lhe parece que ela evoca uma outra espécie de vida, uma vida que não se parece em nada com a vida do comum dos mortais? Mas há perigos, sim. E muita tristeza. É uma vida dura. Mas não sei... talvez haja homens de verdade lá, nos mares do Oriente.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

DA MINHA ALIENAÇÃO

Antes eu tinha vergonha. Agora não tenho mais: não gosto de jornais, não gosto de política, não gosto de economia. Detesto politicagem e simplesmente ignoro (ou tento ignorar, pois nem sempre é possível) quem foi ou vai ser processado por tal ou qual crime político, ou quem vai assumir a cadeira de fulano, caso sicrano dê com a língua nos dentes e destrua não sei quantas carreiras políticas até ontem sólidas. Se sei alguma coisa sobre política e economia é porque de um modo ou de outro gosto de letras, palavras e de coisas bem escritas. Se o artigo é bem escrito, então eu leio. A História me fascina; a Filosofia também. E também a Filosofia Política, e a História Econômica, mas apenas pela carga de literatura de não-ficção que eles contêm. Não sei se me explico bem. Se o texto ou livro é bem escrito, então a coisa me interessa. E aí é uma delícia saber de História, Filosofia, Economia, o que for. Mas não me pergunte quando foi a última vez que eu comprei o jornal local para saber das notícias, não me pergunte se puxei conversa para saber das últimas da politicalha. Não gosto, não quero nem ouvir. Mas ouço rádio, admito. Especialmente a CBN e a Jovem Pan AM. Não me pergunte por que, pois não sei explicar. Outra coisa: houve uma época, na minha adolescência, em que copiei O Analfabeto Político, de Bertolt Brecht. Aliás, quase o emoldurei e o coloquei na parede. Era um credo para mim. Hoje, ao lê-lo, acho-o ridículo. Aquilo é de uma ingenuidade (ou, como suspeito às vezes, de um ditatorialismo) sem fim. Que nos seja permitido ser analfabetos políticos; que nos seja dada a liberdade de ser analfabetos políticos, pois já não é possível mudar nada politicamente. Se dobro a esquina e escuto dois sujeitos conversando sobre política (especialmente a local, que me perece ainda mais repugnante), tenho, para comigo mesmo, um sentimento de alívio quase inexplicável. Não sou eu que estou ali, naquela xaropada. É quase como se eu me felicitasse por não pertencer a este mundo. Nessas horas, se me lembro do texto do Brecht, tenho vontade de rir. Não rio porque ainda há algum resquício de idealismo em mim, mas certamente não o idealismo ingênuo (ou mentiroso, ou inviável, ou risível) do texto.

domingo, 14 de dezembro de 2008

É DOMINGO

Tudo é silêncio dentro deste apartamento. Mas pela janela chegam vozes de crianças brincando, e estalos suaves de palmas leves, e o som das rodas dos carros sobre o asfalto. Há trechos brevíssimos de música indistinguível e um rumor distante, contínuo e inclassificável, que gosto de imaginar, mesmo sabendo que é impossível que ele chegue até aqui, que é o das ondas batendo na praia, lá longe. É domingo. Agora me explique: por que nos outros dias você não nota estas coisas?

sábado, 13 de dezembro de 2008

CEM ANOS DE SOLIDÃO

E porque eu falei da chuva lembrei de Cem Anos de Solidão. Não sei se você já leu. Se não leu, deve ler agora. Pare tudo o que estiver lendo e comece a ler. Algumas páginas de estranhamento são naturais, talvez as trinta primeiras. Mas depois você entra naquele mundo e não quer mais sair. Quando sai, no final do livro, fica com pena. É uma das revelações literárias da minha vida. Algo mudou em mim, e pra melhor, depois que li Cem Anos de Solidão. Quantos momentos bons lendo o livro! Ah, e por falar nisso, a chuva! Há um capítulo no livro que começa assim: “Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias.” Esse capítulo desperta em mim não sei que emoções indefiníveis. Talvez porque na época em que li o livro tenha chovido com certa regularidade (não tenho certeza, mas me lembro de algumas chuvas). De qualquer modo, o capítulo inteiro, como todo o livro, é um deslumbre. Veja esta passagem: “O ruim era que a chuva atrapalhava tudo e as máquinas mais áridas brotavam em flores por entre as engrenagens se não fossem lubrificadas de três em três dias, e se enferrujavam os fios dos brocados, e nasciam algas de açafrão na roupa molhada. A atmosfera estava tão úmida que os peixes poderiam entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentos.” Esse clima de irrealidade, tão estranho para quem começa a ler o livro, rapidamente se solidifica e passa a ser a única realidade possível enquanto o livro está aberto. E toda vez que você fecha o livro e olha ao redor, e pensa nos seus compromissos, nas coisas chatas que tem que fazer, você percebe o quanto é sem graça a realidade de verdade. E aí você quer voltar ao livro, quer acompanhar a saga dos Buendía, quer viver em Macondo, quer que aquilo dure para sempre. Já li o livro duas vezes, com intervalo de anos entre elas. Agora pretendo ler uma terceira vez, mas no original. Não domino o idioma espanhol, mas acho que com boa vontade e um dicionário razoável é possível penetrar novamente naquele universo, cheio de mistérios e encantamento desde a primeira frase: “Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.”