sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

AGADIR

Eu era menino em Agadir e brincava com meus amigos numa ruela com chão de terra batida, próxima à minha casa. De pés descalços, correndo atrás de uma bola feita de trapos, tínhamos o rosto coberto de poeira e suor, e essa era toda a nossa riqueza. Então apareceu aquele homem magro, que ficou olhando para nós por alguns instantes e depois se afastou. Antes que se fosse, nos poucos segundos de atenção que lhe concedemos, vimos seu rosto seco, curtido, e seu olhar distante – como se nossa brincadeira o tivesse feito recordar algo há muito tempo esquecido. Pouco depois ele voltou, e então pude fixar seu rosto para sempre. Trazia, pendentes dos braços, pantufas, braceletes e bonecos, e começou a distribuí-los entre nós. Eu fui o primeiro a ser tocado por sua generosidade, e, enquanto ele me estendia um cavalo de madeira, tive tempo de olhá-lo nos olhos, de mergulhar neles para encontrar riquezas desconhecidas. No momento seguinte, todos os meu amigos solicitavam suas dádivas e seus olhares, e ele já não me dava atenção. Acabado o festim, ele sumiu de novo, e nunca mais o vi. Dias depois, eu soube que ele distribuiu presentes em outras ruas, que gastou como se fosse um dos senhores abastados da cidade. Mas eu não acho que fosse rico. Seus braços magros, sua roupa velha, suas costas encurvadas indicavam, ao contrário, pobreza. Não que isso importe. Naquele momento ele foi, para nós, mais do que rico: ele foi bom. Havia muitas pessoas ricas na cidade, mas isso não as fazia especiais, se é que você me entende. Agora faz muito tempo que não vivo em Agadir. A cidade cresceu, atraiu turistas e negócios, e já não guarda os traços da cidade da minha infância. O vento do Atlântico continua soprando sobre suas casas, mas agora sopra também sobre hotéis majestosos, cafés em estilo europeu e balneários que remetem ao paraíso. Meus amigos sumiram, perderam-se nas dobras do tempo e da mudança, mas acredito que eles concordariam comigo se eu lhes dissesse que toda a prosperidade de Agadir e toda a pompa de suas largas avenidas não se compara à beleza de sonho daquela rua empoeirada, naquele dia antigo em que fomos mais ricos do que jamais seríamos.

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