quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

PUNTA ARENAS

Ah, viver em Punta Arenas. À tarde, nos sábados à tarde, postar-me num promontório qualquer e, de lá, receber no rosto o vento que sopra pelo Estreito. E no mês de julho, quando a temperatura é mais baixa, cobrir-me de mantas grossas e caminhar por suas ruas e visitar suas fontes, anotando pequenos milagres invisíveis à maioria da gente, como o gato que descansa indolente sobre um muro, indiferente ao frio, o rabo pendente como uma cobra. Ou, no mês de janeiro, quando a temperatura se eleva um pouco mais, vestir roupas leves e, acostumado ao que me parecerá então uma brisa de primavera, observar a faina humana de todo dia, os trabalhadores do mar, meus irmãos. Ah, em Punta Arenas eu desempenharia serviços de verdade. Não viveria de colocar letras no papel, de fazer despachos burocráticos. Em Punta Arenas eu não pensaria em dinheiro senão como em algo que me permitisse comprar o pão de cada dia. Tomaria diariamente um trago com meus companheiros, e partilharia com eles, enquanto nossa pobreza nos permitisse, o prato que nos sustentaria as forças. Contaríamos histórias, nossas e de amigos distantes. E riríamos e choraríamos, e nos sentiríamos irmãos, sem mais nada na vida senão a fé na amizade, na pobreza e na força dos elementos. E à noite eu voltaria para casa, para os braços daquela que, antes de eu a ter escolhido, a mim teria me escolhido primeiro, porque ela seria a minha senhora, minha enseada nesta costa distante e seca que é a minha cidade, ah, Punta Arenas. E quando eu morresse, velho e cansado, no meu quarto de tantos anos, com sua única janela aberta para a rua, para os vendedores com seus pregões, para as crianças que brincam na calçada, meus companheiros viriam transmitir seus sentimentos à minha viúva, e diriam a ela: “Não te preocupes, pois teus filhos estão bem criados. Têm diante de si o mar, o gelo e o vento, mas são fortes e nobres. Esta é a melhor herança que lhes deixou o pai.”

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