quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

CAFÉ TERRACE À NOITE

Certa vez um amigo contou-me uma história curiosa. Estava bebendo com um conhecido num bar qualquer, um desses bares em cujas paredes ficam penduradas reproduções baratas de telas famosas. Comentavam, como se soubessem do que falavam, sobre as circunstâncias que cercavam cada pintura, sua técnica e modo de realização. Em certo momento, o outro observou na parede uma reprodução da tela Café Terrace à Noite, de Van Gogh. Ficou silencioso por alguns segundos e então, cheio de genuína nostalgia, apontou o dedo, dizendo: “Já estive ali”. Embora dele se pudesse dizer, com algum exagero, que praticamente nunca tivesse posto os pés fora de casa, apontava a pintura e dizia que se sentara naquela cadeira ali, aquela mais para o lado da rua, a primeira, agora vazia. Naquele lugar, com um único café sobre a mesa, um jornal dobrado sobre a perna, o nariz e os olhos inquietos, deixara-se ficar, num final de tarde de primavera, a sentir no ar o perfume das mulheres francesas, a admirar-lhes as pernas longas, quando passavam leves e louçãs, com seus vestidos florais. O café, que existe de verdade (e, diga-se de passagem, é bem menos bonito que o da pintura), fica na Praça do Fórum, em Arles, na França, e hoje é freqüentado por turistas do mundo inteiro. Pois bem. Meu amigo ouviu com ouvidos benevolentes a declaração entusiástica e, claro, considerou-a fantasiosa. Sorriu o riso dos que sabem das coisas e, discretamente, para que o outro não notasse, afastou para o lado a meia garrafa de vinho que ainda restava: não queria correr o risco de ouvir o outro dizer ter encontrado o próprio Van Gogh entretido no ato de pintar. Aliás, Van Gogh, nesse quadro, pintou pela primeira vez as estrelas como fundo de suas telas. Depois ele repetiria o procedimento nas telas Noite Estrelada Sobre o Ródano e Noite Estrelada. Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que eu prefiro acreditar que aquele conhecido do meu amigo tenha estado no Café Terrace. Para mim, é justo, é imprescindível que tenha estado. O mundo está cheio de mortos-vivos, gente que olha e não vê, que cheira e não sente, que prova e não saboreia. A meu ver, para cada um desses ingratos deveria haver um contrário perfeito, pessoas que, por artes de sonho, ou pela força do álcool, ou mesmo pelo encanto do pensamento puro, pudessem usufruir dos sons, dos cheiros e das belezas do mundo – em qualquer lugar e em qualquer tempo. O conhecido do meu amigo certamente seria um destes tipos. Fascina-me imaginar que numa noite antiga, uma noite estrelada, muito anterior ao seu nascimento, ele tenha visitado também o rio Ródano, o caudaloso Ródano, em sua turbulenta marcha rumo ao Mar Mediterrâneo. Ali, às suas margens, há de ter-se sentado distraído num banco qualquer e, sem querer, sem perceber o especial momento artístico que se desenrolava diante de seus olhos, há de ter acompanhado, sonolento, os movimentos do próprio Van Gogh debruçado sobre uma tela. Atormentado, inquieto, naquele momento o pintor transformava, com pequenas pinceladas, uma paisagem até então comum num espetáculo de cores.

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