segunda-feira, 31 de março de 2008

OS LUGARES DA INFÂNCIA


RUAS


O meu mundo era a minha rua. Certa noite os adultos me colocaram num carro: iam levar-me, não sei por que motivo (pois nunca haviam feito isso antes), a um tradicional bar da cidade. Deslumbrado com as ruas pelas quais passávamos, estive silencioso todo o tempo. Foi como uma viagem ao outro lado do mundo, de tão distante que era. Lá do outro lado, porém, achei tudo feio, escuro e barulhento. Os adultos me deixaram tomar um guaraná e, do nada (pelo menos para a minha cabeça de criança), decidiram voltar. Mantive-me silencioso durante toda a volta, admirando pela janela do carro aquela nova geografia. O bar, que vim a freqüentar muitas e muitas vezes na adolescência e na fase adulta, chamava-se (chama-se, pois agüenta-se até hoje) Bar do Paulo – em homenagem ao “seu” Paulo, o proprietário. Mas na época o bar não era importante. Importante era o caminho que se percorria para chegar lá.

sábado, 29 de março de 2008

TÓQUIO

Não há dúvida de que o improvável acontece. Aliás, o improvável costuma acontecer com regularidade desconcertante. O caso é que nunca estamos preparados para ele. Achamos que as coisas têm de obedecer a uma certa ordem que nós, deuses arrogantes, traçamos e decidimos que tem de ser cumprida. O pior é que em geral não acontecem como queremos, ou acontecem muito pouco. E no entanto insistimos em desenhar nossas rotas, mesmo intuindo que a vida tem seus próprios caminhos – e que os impõe a nós sem piedade. Na maioria das vezes, essas coisas nos desgostam. Mas há situações em que elas podem ser muito agradáveis. Deu-se um destas comigo. Eu estava em Tóquio a trabalho e, numa noite de insônia, havia decidido procurar um bar onde pudesse passar o tempo. Entrei no primeiro que me apareceu pela frente, e que apenas por milagre percebi. Era um bar obscuro, escondido atrás de uma fachada anódina e sem graça. Não havia placa ou letreiro, de modo que até hoje não sei seu nome. A única coisa que me chamou a atenção, e foi o que afinal me fez entrar, foi um sujeito que dormia, com expressão beatífica, escorado na porta. Dentro do bar havia muita fumaça de cigarro, e pairava sobre as mesas um rumor surdo, de homens conversando em voz baixa, como se conspirassem. O lugar tinha uma atmosfera que, se se tratasse de um filme policial, poderia ser considerada no mínimo suspeita. Sentei-me ao balcão e, depois de meia hora lá dentro, não tinha visto nada que alimentasse minhas especulações. De costas para o palco, eu observava o modo como o barman atendia os clientes, fazendo-lhes caretas e emitindo murmúrios. Estava tentando compreender o que o homem dizia, quando ouvi um som indistinto vindo do palco: um instrumento de sopro, que se elevava por entre o burburinho e produzia um som que eu já tinha ouvido algumas vezes havia muito tempo. Voltei-me, mas, por causa da fumaça, não pude ver nada que estivesse a mais de um palmo do meu nariz. Deixei o balcão, passei por entre as mesas e cheguei à beira do palco. Um instrumento de sopro já era algo improvável num bar como aquele, mas mais improvável ainda era que o instrumento fosse um oboé. Não bastasse isso, atônito, eu constatei que conhecia aquela moça que, sozinha no palco, tocava de olhos fechados. Havíamos sido, no passado, o que se pode chamar de amigos íntimos. Assisti ao show sem que ela me visse. Quando desceu do palco, depois de meia hora de apresentação etérea, rarefeita, surpreendi-a com a minha aparição fantasmal. Passado seu susto, convidei-a para sentar a uma mesa que tinha acabado de ser desocupada, no canto do bar, e intimei-a a me fazer o relato da cadeia de acontecimentos que a tinham levado até ali. Depois de me reafirmar seu improvável amor pelo oboé, que eu conhecia desde o começo, ela me contou que estava morando em Tóquio havia pouco mais de um ano e que não falava quase nada de japonês. Isso não me surpreendeu. Aliás, nada mais naquela noite me surpreenderia. Mas comoveu-me imaginar, por outro lado, sua solidão de estrangeira analfabeta, e os malabarismos que teve de fazer para ser compreendida. Ela me disse que viera a convite do dono do bar, um japonês louco e cabeludo que durante algum tempo tinha morado em nosso país e que a conhecera numa apresentação. Tinha vindo com a cara e a coragem – mais com cara do que com coragem, pois o medo fora muito e grande. Na época, porém, não lhe restava alternativa: não tinha trabalho nem perspectiva de, e havia acabado de sair de um relacionamento que havia lhe tirado tudo, inclusive a alegria. Nada melhor, ela se disse frouxamente, do que viver num país distante. E era feliz agora, mesmo que ninguém prestasse atenção ao seu oboé. Escutei sua história em silêncio, e depois, em dois minutos, contei-lhe o rumo que a minha vida tinha tomado desde a última vez em que nos víramos. Nada que merecesse nota, assegurei. Depois de conversarmos quase toda a noite, propus-lhe que passeássemos pela cidade. Saímos para o frio da madrugada e começamos a andar devagar. Quando chegamos à Estação Shibuya, com seus enormes edifícios de letreiros luminosos, lembrei-me imediatamente de Nova York, e fiz o comentário óbvio: “Esta é a Times Square de Tóquio”. Minha amiga sorriu e disse que nunca tinha ido a Nova York, mas que obviamente tinha visto em fotos a Times Square. E completou: “Hoje toda cidade tem uma dessas”. Era verdade. Todas as cidades estavam começando a se parecer umas com as outras. Andamos durante muito tempo, às vezes de mãos dadas, às vezes enlaçados. Não queríamos mais que isso. Bastava-nos a nossa companhia nesse país estrangeiro e distante. Bastava a feliz coincidência de estarmos juntos. Houve um momento em que ela, distraída, quedou-se a contemplar os letreiros, as imagens miríficas estampadas nos edifícios. Eu a observei discretamente, e pude ver o brilho das luzes em seus olhos, pude ver o vento acariciando-lhe os cabelos negros, pude ver sua testa altiva. Era bela, a minha amiga. E por um desses acasos da vida, eu e ela parecíamos, naquele momento, a perfeita companhia um para o outro.

OS LUGARES DA INFÂNCIA


A MINHA RUA


A minha rua era um campo de futebol. Depois da final da Copa do Mundo de 86 – aquela em que o Maradona tomou a bola para si e não permitiu que ninguém se atrevesse com ela –, eu e meus amigos entramos em campo e fizemos um dos melhores jogos de nossas vidas, só para mostrar ao Maradona que as coisas não eram como ele estava pensando. Mas mesmo antes de eu saber quem era Don Diego (mas não antes de saber quem era Pelé), eu já jogava bola na minha rua – quer dizer, no meu campo de futebol. Os jogos eram sempre à noite, com ou sem chuva. E o melhor, o melhor de tudo, era quando eu conseguia driblar minha mãe e, depois das partidas, dormir sem tomar banho, completamente sujo. Eram lances de craque, raríssimos.

domingo, 16 de março de 2008

O DANÚBIO

Quando os godos começaram assaltar as fronteiras do Império, forçando os romanos a encarar aquilo que seria o início do fim do seu poder, Marco Aurélio, o imperador filósofo, pôde intuir, solitário como apenas os imperadores podem ser, o futuro negro que se avizinhava. Embora detestasse a guerra, Marco Aurélio não pensou duas vezes antes de se expor, junto com seus soldados, aos rigores de oito campanhas de inverno nas gélidas ribanceiras do Danúbio, num esforço que, ao final, sequer valeu a pena, dada a infinita pertinácia dos invasores. Na verdade, o Império Romano começara a ruir havia já algum tempo, mas o processo era tão lento e, contraditoriamente, tão cheio de vitórias, que ninguém, nem mesmo os homens mais perspicazes da época, o puderam perceber. Depois da morte de Marco Aurélio, no entanto, a pax romana começou a declinar a olhos vistos e terminou por virar menção nos livros de História. Penso em todas estas coisas aqui, às margens do Danúbio, o rio que atravessa a minha cidade e a minha vida. Rio acima, rumo ao leste, travaram-se batalhas das quais hoje poucos se dão conta. Agora, confortavelmente instalado num luxuoso pub flutuante, contemplando o lento crepúsculo, sinto no ar o cheiro destas e de novas batalhas – estas últimas sem cortes, sem aço e sem sangue, mas igualmente trágicas. O Danúbio é famoso pela cor de suas águas, e é precisamente nessa hora, quando o sol vai declinando, que seu tom marrom cede lugar ao azul. À medida que a escuridão assume o lugar da luz, o Danúbio se concerta com o céu: é o começo da noite, é o começo da agonia. Pois os homens se agoniam à noite. Quando fecham a porta atrás de si depois do longo dia de trabalho, quando sentam para tirar os sapatos, quando encostam a cabeça no travesseiro, aí então é que começam a rolar os pensamentos, a princípio apenas rumorejantes, mas depois numa torrente, mostrando-lhes a dor, a solidão, o medo e o vazio. E os homens saem à noite. Vejo-os agora, seus rostos perplexos. Vejo-os ansiosos, seus olhos procurando o amigo que já vem, a amiga que está atrasada, o conhecido que possa ser uma vela na escuridão. E no entanto o Danúbio brilha. Suas duas margens estão cheias de luzes e de promessas que ninguém vê. Este casal que está ao meu lado, por exemplo. Não sei se são amigos. Podem ser amantes, podem ser namorados, podem ser um casal regulamentar. Estão tensos, mas não parecem estar brigando. Olham-se nos olhos amiúde, e sustentam o olhar. Eu os respeito por isso, pois há muito aprendi que esta é uma característica dos diálogos graves e importantes. Os dois não notam o rumor das águas, o brilho das luzes, o vôo dos pássaros noturnos. Não notam o estranho que os observa e tenta adivinhar o que lhes vai pela cabeça. Estão imersos em sua silenciosa batalha. Vou deixá-los em paz. Daqui a pouco o pub vai se encher de gente. Daqui a pouco todos os bares das margens, e os do centro da cidade, e os da periferia, vão se encher de gente. Daquela gente que, mais cedo ou mais tarde, mas sempre fatalmente, corre de suas casas como se lá vivesse um bicho. Eu os vejo e me compadeço deles, como me compadeço do soldado que pisa receoso o campo de batalha. E penso: e minha própria guerra, em que planície, em que monte, em que estuário ela se esconde?