quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
WEIMAR
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
MAUDLIN STREET
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
VALPARAÍSO
Em Valparaíso é assim: depois que chove, o ar se enche de gotículas minúsculas que saturam a atmosfera e lhe dão uma consistência aquosa. Algumas pessoas, insensíveis às mudanças climáticas, não notam a diferença, e vivem o dia na forma convencional de todos os dias. As que notam, porém, sentem-se como se estivessem imersas numa substância diversa, algo que não é ar nem água. Nesses dias, não bastasse isso, o céu parece baixar em direção à terra, e tudo se cobre de cinza e frio. É sempre assim quando chove em Valparaíso, e isso me incomoda. Houve um dia, porém, em que a chuva, o frio e a opressão do céu nublado de Valparaíso não me incomodaram. Eu caminhava em direção ao porto, sentindo no ar a doce azáfama da movimentação diária dos navios e dos guindastes descarregando contêineres. Apressado, passei por turistas que, num mirador, posavam para fotos. Já seguia em frente quando, não sei por que, me voltei para uma mulher que posava junto a um parapeito. Até hoje não sei explicar a comoção que senti. Já vi muitas mulheres atraentes, pois esta cidade as tem em profusão, especialmente as que estão em trânsito. Nenhuma, porém, jamais me provocou semelhante abalo. A começar pelos olhos. Os olhos dos habitantes desta cidade, e também os das mulheres que a visitam, são cinza. (Este também é um fenômeno muito particular em Valparaíso, especialmente nos dias de chuva: todos têm os olhos cinza.) Nessa mulher, porém, seus olhos castanhos permaneciam castanhos. E brilhavam. Ela era bela e branca, e tinha uma suavidade que jamais vi em mulher nenhuma. Diminuí o passo e voltei. Fiquei no parapeito, à curta distância. Enquanto ela posava, lembrei de um poema de Neruda, um que diz assim: Há mais altas que tu, mais altas;/há mais puras que tu, mais puras;/há mais belas que tu, há mais belas./Mas tu és a rainha. O poema falava dela! Não foi preciso chegar mais perto para que seus olhos castanhos me enfeitiçassem definitivamente e para que tudo em redor ficasse ainda mais cinza. Permaneci imóvel, observando-a sorrir para a câmera, até que, minutos depois, ela partiu com o grupo que a acompanhava. Fiquei feliz por ver que ela não estava com ninguém em particular, mas fiquei triste por saber que isto de pouco me adiantaria, pois ela sequer me notara. (E, se notasse... eu era mais um tom de cinza na paisagem.) De qualquer modo, eu não a encontraria de novo, pois em pouco tempo, talvez naquele mesmo dia, ela já não estaria na cidade. Não pisaria mais as pedras de suas ruas, não apoiaria seus braços naquele parapeito, não encheria com a sua presença, com os seus olhos coloridos, a paisagem em preto-e-branco que é Valparaíso nos dias de chuva.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
QUALQUER ESQUINA
Dobrar numa esquina, em vez de seguir reto na rua, é fazer uma opção irremediável. Mesmo que você volte imediatamente, as circunstâncias que cercam seus passos serão outras: você poderia ter tropeçado da primeira vez, poderia ter encontrado um anel de ouro, poderia ter visto passar, dentro de um carro, uma pessoa conhecida. Claro, se você segue reto na rua, você também pode tropeçar, ou encontrar um anel de ouro, ou ver passar alguém conhecido num carro. Mas você não saberá disso a não ser que tropece, ou encontre um anel, ou veja passar esse alguém conhecido. A idéia é um lugar comum, eu sei. Todos já pensaram nisso. O fato, porém, é que poucos notam quando passa ao seu lado, e desfaz-se no ar, a vida que não foi escolhida. Fazer uma opção, qualquer que seja ela, é descartar milhares de acontecimentos que mudariam a sua vida. E é também, ao mesmo tempo, apegar-se a outros milhares de acontecimentos que mudarão a sua vida. Aliás, não fazer uma opção também é descartar milhares de acontecimentos e apegar-se a outros milhares. O que quer que você faça – ou não faça –, ocasionará a morte de infinitas possibilidades suas, algumas felizes, outras nem tanto. Essa sensação me ocorreu, fortíssima, um dia desses. Dobrei numa esquina e encontrei-me numa rua bonita, cheia de árvores. Havia pessoas sorrindo, havia uma brisa que soprava leve, havia um cachorro que abanava o rabo sem que se pudesse saber por quê. Mas ao dobrar na esquina ainda vi de relance a rua que deixei de percorrer, a rua em que até então eu vinha seguindo. Doeu-me saber (e era como uma saudade) que deixei de cruzar com alguém muito importante para mim, alguém a quem eu queria muito bem e que já não via fazia muito tempo. A sensação era forte demais para não ser verdadeira. Ou então era verdadeira só porque era forte demais. Naquela rua em que não segui havia perigos, claro, e coisas ruins que foram evitadas. Mas a rua em que entrei ao dobrar a esquina, embora pudesse trazer-me alguém que me alegrasse a vida, também tinha seus perigos. Algumas pessoas, ouvindo isso, podem dizer, simploriamente: “Então tanto faz. Se no final tudo tem seu lado bom e ruim, nunca há como saber o que é melhor ou pior, e uma esquina é só uma esquina”. É um pensamento lógico, mas pobre. Certamente nunca saberemos o que deixamos para trás, ou o que encontraremos pela frente. Podemos até imaginar o que perdemos ou evitamos, ou o que vamos conquistar ou sofrer, e essa imaginação nunca entrará no mundo do real, do vivido. Esse é o pensamento corrente – pobre e triste. Instiga-me mais imaginar que é possível ver ao nosso lado, por fugazes instantes, a vida que não escolhemos. Ela é sempre fascinante, e mesmo que alguns considerem tola a pergunta que surge nesses momentos, ainda assim ela se impõe e me comove: como teria sido?
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
MINHA RUA
Minha rua foi feita apenas para mim. É certo que outros já a viram, e é certo que outros passaram por ela. É mesmo certo – embora isso me surpreenda – que outros tenham morado nela. Mesmo estes, porém, nunca souberam o modo correto de vê-la ou habitá-la. Hoje, como num espaço encantado, apenas eu vivo nela, e sinto e aprecio coisas que ninguém nunca apreciou ou sentiu. Nela, por exemplo, sopra uma brisa constante, quase como uma carícia, e a cada manhã canta um pássaro diferente. À noite, quando a lua a torna ainda mais clara do que ela é, e eu a percorro com sua silenciosa permissão, suas curvas me falam de aconchego e cuidado. Ela tem um cheiro que nenhuma outra rua tem, um cheiro que a torna ainda mais particular quando das flores que nela crescem emana um aroma que não é de nenhuma outra flor e que enche as minhas noites. É durante as noites, aliás, que sinto com mais força a sua presença. Deitado na minha cama, ou escrevendo diante da janela aberta, sinto que minha rua toma conta de mim. Agora mesmo, enquanto escrevo, sinto que ela ainda não dorme. Ela me faz companhia, e só dormirá quando eu dormir. Daqui a pouco levantarei para fazer chá. Esperarei na cozinha até que a água ferva. Enquanto o fizer, pensarei nela, e ela estará pensando em mim. Aliás, ela não estará apenas pensando em mim, mas estará comigo na cozinha, enquanto espero o chá ficar pronto, e estará comigo quando eu atravessar a sala de volta para o meu gabinete, onde agora escrevo. Sei que é difícil de entender, mas minha rua entra pela porta de minha casa. Eu vivo nela, e ela, por um prodígio que desconheço, vive comigo aqui dentro. Lembro bem do dia em que a vi pela primeira vez: admirei sua discrição, sua suave arquitetura, a leveza de suas linhas. Na época não formulei o pensamento, mas intuí algo que hoje eu traduziria assim: acho que vou morar aqui. Não sei por que, mas era como se eu já soubesse que ela me esperava, e que tinha sido feita, com todo o cuidado, apenas para mim.