quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

WEIMAR

Ouvi dizer que em Weimar, na Alemanha, diante da casa de Charlotte Von Stein, o espírito do poeta e dramaturgo Johann Wolfgang von Goethe aparece todas as noites para escrever cartas de amor. Charlotte era casada e tinha três filhos, mas dela se diz que foi o grande amor platônico de Goethe, numa relação que durou cerca de dez anos. Durante o período, os dois trocaram mais de 1700 cartas. Também ouvi dizer que em Weimar, na antiga casa de Johanna Schopenhauer, mãe do filósofo Arthur Schopenhauer, os dois se encontram (em espírito) todos os dias, para brigar e lançar impropérios um contra o outro. Parece que a coisa começou quando Goethe, que era amigo de Johanna, disse a ela que seu filho estava destinado a grandes coisas. Ao ouvir a declaração do amigo, Johanna objetou: “De jeito nenhum!”, pois ela nunca tinha ouvido dizer que fosse possível haver dois gênios numa mesma família. Johanna, que escrevia romances, ensaios e memórias, era uma mulher à frente de seu tempo, e sua casa era uma espécie de salão literário da época, freqüentado, além de Goethe e de muitos outros, por Friedrich Schiller, poeta, filósofo e historiador. Schiller, por sinal (de quem ouvi dizer que, em espírito, posta-se todos os dias diante de sua própria estátua, na Theaterplatz, para declamar poemas de sua autoria), foi quem disse uma das frases mais contundentes e verdadeiras da história do pensamento mundial. Tão contundente e verdadeira que merece ser escrita tal como foi pronunciada: “Mit der Dummheit kaempfen Goetter selbst vergebens”, ou seja, Contra a tolice lutam os próprios deuses em vão. Ainda quanto a Schopenhauer, há uma história que ilustra muito bem a gravidade do conflito existente entre ele e a mãe. Uma vez, numa discussão mais inflamada, Johanna empurrou o filósofo escada abaixo. Depois da queda, Schopenhauer declarou, com o coração cheio de ódio, que ela só seria conhecida pela posteridade por causa dele. Foi também por causa da mãe que Schopenhauer adotou, ao longo de sua vida e de seus escritos, uma posição extremamente rigorosa em relação ao sexo feminino. Certa vez ele disse: “A mulher é, por natureza, destinada a obedecer”. Por ouvir dizer estas histórias e por ler sobre elas, imagino outras mil, com outros personagens célebres que viveram na cidade: imagino Bach percorrendo apressado suas ruas, ansioso para colocar no papel alguma melodia que lhe surgiu pronta e inteira na cabeça; imagino Nietzsche, já em seus últimos dias, vivendo com a irmã, louco de pedra e triste como ninguém; imagino Carl Zeiss, cujas lentes especiais levam seu nome, especulando, ao sol do meio-dia, sobre algum experimento de óptica. Só de compositores, ao menos quatro grandes moraram na cidade: Bach, Liszt, Strauss e Wagner. Não bastasse isso, a cidade abrigou os congressistas que redigiram a nova Constituição da Alemanha, em 1918, dando ensejo ao nascimento de uma nova e avançada era política: a República de Weimar. Mas que cargas d'água tinha e tem este lugar, para abrigar tanta gente excepcional? Talvez a simples confluência de espíritos seja uma explicação: quando se sabe que num determinado lugar há alguém brilhante, ou um grupo excepcional, é comum que para lá acorram pessoas com interesses semelhantes. Uma outra explicação também é possível: em Weimar havia, desde muito tempo, espaço para a ciência, as artes e a filosofia. Museus, bibliotecas e teatros atraem pensadores e artistas como lâmpadas atraem insetos. Mas nem tudo é glorioso na história da cidade: com a ascensão do nazismo, Hitler a escolheu para ser a sede do primeiro congresso nacional do partido nazista. Não satisfeito, mandou construir, a oito quilômetros dali, num pequeno bosque que Goethe adorava freqüentar, o campo de concentração de Buchenwald, que fornecia trabalho escravo para a indústria local. A verdade é que não há cidade que resista incólume à passagem da história. Menos mal quando nela moraram ou moram pessoas que contribuem positivamente para moldar a face do mundo - e a maneira como o vemos, ouvimos e pensamos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

MAUDLIN STREET

Ele me contou a história, banal como todas as histórias de adolescentes, uma noite em que nos encontramos a sós, bebendo num bar esquecido. Só a reproduzo aqui porque ela me fez pensar no adolescente que fui, tão diferente do adolescente que ele foi. Hoje, que já somos adultos, não me julgo muito diferente dele, mas há algo nele que nem eu nem meus outros amigos temos, e isso me inquieta. Talvez tenha a ver com esta sua história de adolescente ferido. Ele me disse, primeiro, que o tema musical de sua história era Late Night, Maudlin Street, de Morrissey. Disse que ouvia a canção todos os dias, ou melhor, todas as noites. Não sabe dizer se começou a ouvi-la antes ou depois de se apaixonar pela garota – sim, tinha que haver uma garota nesta história, mais velha que ele e nem tão bonita assim. Ele a conhecera por meio de amigos, quando estavam juntos naquilo que à época era o acontecimento de maior importância na vida social dos adolescentes da cidade: os Jogos da Primavera. Depois de apresentados, ela ficou ao seu lado nas arquibancadas e, com uma espontaneidade que o desconcertou, comentou os lances das partidas, os gols e pontos marcados, a performance dos atletas. A partir do dia seguinte, e sem combinação prévia, ele passou a levá-la para casa depois dos jogos, a princípio junto com os amigos, mas depois sozinho. Ficavam conversando na porta até que os pais a chamassem. Não demorou para que se tornassem amigos, ou o que ele entendia por tal, e demorou menos ainda para que ele se surpreendesse pensando nela todas as horas de todos os dias. Um dia, ao som de Late Night, Maudlin Street, e sem coragem de falar-lhe diretamente, escreveu para ela um bilhete apaixonado – um bilhete dorido e sincero, declarando o seu amor – e o enviou por uma amiga comum. Depois disso, ela desapareceu. Os jogos haviam acabado, e as visitas que ele fez à sua casa resultaram em desapontamento, pois ou ela havia saído ou estava estudando ou estava dormindo. Até hoje não consegue lembrar quem lhe disse o que havia acontecido, mas consegue lembrar a dor viva que sentiu: ela havia voltado para um antigo namorado que a abandonara. Como?, ele se perguntou, como ela podia ter feito uma coisa dessas? Então o amor dele não valia mais que o amor vagabundo de um cretino que a abandonara? O sujeito ia abandoná-la de novo, claro. Nesse ponto, ele sorriu e me olhou de um modo estranho. Disse: “Naquela época eu pensava que as coisas eram fáceis de resolver, eu pensava que era só colocar na balança os dois amores: o meu, puro e sincero, e o do outro, vagabundo e irresponsável. O meu pesaria mais, e ela me escolheria. Isso me parecia lógico. Mas essas coisas não têm nada a ver com a lógica”. Compreendi, então, o porquê de seu olhar estranho: ele sabia de meus amores. Sabia de minha facilidade com as mulheres, desde a adolescência. Sabia que quanto mais eu as fazia sofrer, mais elas pareciam se apaixonar. Baixei os olhos com fingida vergonha, mas no fundo com certo orgulho vão. Então ele concluiu sua história. Disse que tornou a vê-la algumas vezes, já na companhia do namorado. Disse que ela passava por ele e o cumprimentava como se não tivesse recebido bilhete nenhum, como se nunca tivesse conversado com ele, à porta de casa, noite após noite. Late Night, Maudlin Street continuava tocando em sua vitrola, e a paisagem noturna de sua rua, que ele via da janela do seu quarto, era tão desolada quanto a da música de Morrissey, que ele traduzia aos tropeções, com um dicionário chinfrim. Encheu seu copo, olhou para o meu, e pôs a garrafa sobre a mesa. Disse por fim, num tom de voz que até agora não sei definir se era de ironia ou de pesar: “O pior foi quando descobri que chamavam o cara de Macarrão. Pode, uma coisa dessas? Macarrão. Isso lá é apelido de alguém que mereça confiança?”

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

VALPARAÍSO

Em Valparaíso é assim: depois que chove, o ar se enche de gotículas minúsculas que saturam a atmosfera e lhe dão uma consistência aquosa. Algumas pessoas, insensíveis às mudanças climáticas, não notam a diferença, e vivem o dia na forma convencional de todos os dias. As que notam, porém, sentem-se como se estivessem imersas numa substância diversa, algo que não é ar nem água. Nesses dias, não bastasse isso, o céu parece baixar em direção à terra, e tudo se cobre de cinza e frio. É sempre assim quando chove em Valparaíso, e isso me incomoda. Houve um dia, porém, em que a chuva, o frio e a opressão do céu nublado de Valparaíso não me incomodaram. Eu caminhava em direção ao porto, sentindo no ar a doce azáfama da movimentação diária dos navios e dos guindastes descarregando contêineres. Apressado, passei por turistas que, num mirador, posavam para fotos. Já seguia em frente quando, não sei por que, me voltei para uma mulher que posava junto a um parapeito. Até hoje não sei explicar a comoção que senti. Já vi muitas mulheres atraentes, pois esta cidade as tem em profusão, especialmente as que estão em trânsito. Nenhuma, porém, jamais me provocou semelhante abalo. A começar pelos olhos. Os olhos dos habitantes desta cidade, e também os das mulheres que a visitam, são cinza. (Este também é um fenômeno muito particular em Valparaíso, especialmente nos dias de chuva: todos têm os olhos cinza.) Nessa mulher, porém, seus olhos castanhos permaneciam castanhos. E brilhavam. Ela era bela e branca, e tinha uma suavidade que jamais vi em mulher nenhuma. Diminuí o passo e voltei. Fiquei no parapeito, à curta distância. Enquanto ela posava, lembrei de um poema de Neruda, um que diz assim: Há mais altas que tu, mais altas;/há mais puras que tu, mais puras;/há mais belas que tu, há mais belas./Mas tu és a rainha. O poema falava dela! Não foi preciso chegar mais perto para que seus olhos castanhos me enfeitiçassem definitivamente e para que tudo em redor ficasse ainda mais cinza. Permaneci imóvel, observando-a sorrir para a câmera, até que, minutos depois, ela partiu com o grupo que a acompanhava. Fiquei feliz por ver que ela não estava com ninguém em particular, mas fiquei triste por saber que isto de pouco me adiantaria, pois ela sequer me notara. (E, se notasse... eu era mais um tom de cinza na paisagem.) De qualquer modo, eu não a encontraria de novo, pois em pouco tempo, talvez naquele mesmo dia, ela já não estaria na cidade. Não pisaria mais as pedras de suas ruas, não apoiaria seus braços naquele parapeito, não encheria com a sua presença, com os seus olhos coloridos, a paisagem em preto-e-branco que é Valparaíso nos dias de chuva.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

QUALQUER ESQUINA

Dobrar numa esquina, em vez de seguir reto na rua, é fazer uma opção irremediável. Mesmo que você volte imediatamente, as circunstâncias que cercam seus passos serão outras: você poderia ter tropeçado da primeira vez, poderia ter encontrado um anel de ouro, poderia ter visto passar, dentro de um carro, uma pessoa conhecida. Claro, se você segue reto na rua, você também pode tropeçar, ou encontrar um anel de ouro, ou ver passar alguém conhecido num carro. Mas você não saberá disso a não ser que tropece, ou encontre um anel, ou veja passar esse alguém conhecido. A idéia é um lugar comum, eu sei. Todos já pensaram nisso. O fato, porém, é que poucos notam quando passa ao seu lado, e desfaz-se no ar, a vida que não foi escolhida. Fazer uma opção, qualquer que seja ela, é descartar milhares de acontecimentos que mudariam a sua vida. E é também, ao mesmo tempo, apegar-se a outros milhares de acontecimentos que mudarão a sua vida. Aliás, não fazer uma opção também é descartar milhares de acontecimentos e apegar-se a outros milhares. O que quer que você faça – ou não faça –, ocasionará a morte de infinitas possibilidades suas, algumas felizes, outras nem tanto. Essa sensação me ocorreu, fortíssima, um dia desses. Dobrei numa esquina e encontrei-me numa rua bonita, cheia de árvores. Havia pessoas sorrindo, havia uma brisa que soprava leve, havia um cachorro que abanava o rabo sem que se pudesse saber por quê. Mas ao dobrar na esquina ainda vi de relance a rua que deixei de percorrer, a rua em que até então eu vinha seguindo. Doeu-me saber (e era como uma saudade) que deixei de cruzar com alguém muito importante para mim, alguém a quem eu queria muito bem e que já não via fazia muito tempo. A sensação era forte demais para não ser verdadeira. Ou então era verdadeira só porque era forte demais. Naquela rua em que não segui havia perigos, claro, e coisas ruins que foram evitadas. Mas a rua em que entrei ao dobrar a esquina, embora pudesse trazer-me alguém que me alegrasse a vida, também tinha seus perigos. Algumas pessoas, ouvindo isso, podem dizer, simploriamente: “Então tanto faz. Se no final tudo tem seu lado bom e ruim, nunca há como saber o que é melhor ou pior, e uma esquina é só uma esquina”. É um pensamento lógico, mas pobre. Certamente nunca saberemos o que deixamos para trás, ou o que encontraremos pela frente. Podemos até imaginar o que perdemos ou evitamos, ou o que vamos conquistar ou sofrer, e essa imaginação nunca entrará no mundo do real, do vivido. Esse é o pensamento corrente – pobre e triste. Instiga-me mais imaginar que é possível ver ao nosso lado, por fugazes instantes, a vida que não escolhemos. Ela é sempre fascinante, e mesmo que alguns considerem tola a pergunta que surge nesses momentos, ainda assim ela se impõe e me comove: como teria sido?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

MINHA RUA


Minha rua foi feita apenas para mim. É certo que outros já a viram, e é certo que outros passaram por ela. É mesmo certo – embora isso me surpreenda – que outros tenham morado nela. Mesmo estes, porém, nunca souberam o modo correto de vê-la ou habitá-la. Hoje, como num espaço encantado, apenas eu vivo nela, e sinto e aprecio coisas que ninguém nunca apreciou ou sentiu. Nela, por exemplo, sopra uma brisa constante, quase como uma carícia, e a cada manhã canta um pássaro diferente. À noite, quando a lua a torna ainda mais clara do que ela é, e eu a percorro com sua silenciosa permissão, suas curvas me falam de aconchego e cuidado. Ela tem um cheiro que nenhuma outra rua tem, um cheiro que a torna ainda mais particular quando das flores que nela crescem emana um aroma que não é de nenhuma outra flor e que enche as minhas noites. É durante as noites, aliás, que sinto com mais força a sua presença. Deitado na minha cama, ou escrevendo diante da janela aberta, sinto que minha rua toma conta de mim. Agora mesmo, enquanto escrevo, sinto que ela ainda não dorme. Ela me faz companhia, e só dormirá quando eu dormir. Daqui a pouco levantarei para fazer chá. Esperarei na cozinha até que a água ferva. Enquanto o fizer, pensarei nela, e ela estará pensando em mim. Aliás, ela não estará apenas pensando em mim, mas estará comigo na cozinha, enquanto espero o chá ficar pronto, e estará comigo quando eu atravessar a sala de volta para o meu gabinete, onde agora escrevo. Sei que é difícil de entender, mas minha rua entra pela porta de minha casa. Eu vivo nela, e ela, por um prodígio que desconheço, vive comigo aqui dentro. Lembro bem do dia em que a vi pela primeira vez: admirei sua discrição, sua suave arquitetura, a leveza de suas linhas. Na época não formulei o pensamento, mas intuí algo que hoje eu traduziria assim: acho que vou morar aqui. Não sei por que, mas era como se eu já soubesse que ela me esperava, e que tinha sido feita, com todo o cuidado, apenas para mim.