domingo, 20 de janeiro de 2008

LISBOA


Todos os dias acordo com a impressão de que ainda moro lá. Então levanto-me da cama sentindo-me um forasteiro e vou à janela olhar a paisagem. Sempre me surpreendo, pois a luz do sol tem um matiz diferente, e os rumores da cidade me parecem vindos de um país estrangeiro. Afasto-me da janela e digo para mim mesmo: Melhor cuidar da vida. E é o que faço todos os dias, mesmo sentindo que levo comigo, enquanto caminho pela cidade, tudo quanto fui e sou, a aldeia onde morei e já não moro mais, suas ruas de pedra, suas calçadas humildes, suas casas com janelas de madeira, sua praça e coreto. É verdade que sempre quis viver em Lisboa. É também verdade que, a certa altura de minha vida, sonhava com ela quase diariamente, e já podia me imaginar sentado no banco que tenho em frente à minha casa hoje, sob a árvore cujo nome até agora não conheço. Pois ali estão, à minha frente, a árvore e o banco, e, enquanto olho pela janela, posso ver-me sentado, a ler preguiçosamente, como faço quase todo sábado e domingo, e me vejo também a levantar os olhos para observar a gente que passa, lenta ou apressada, e o pardal que bica o chão, e o gato que se espreguiça, e, sobretudo, o movimento dos barcos no rio mais abaixo. É belo o Tejo. Vê-lo correr em sua marcha lenta é como ver o passado, as naus que seguiam rumo ao mar. O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. E Lisboa é, para mim, como o Tejo: bela e rica. Andar por suas ruas é sentir-se como num grande navio. Mas falta a Lisboa ser a minha aldeia. Isso ela nunca será. A minha aldeia vive para si mesma, não se projeta para além, e percorre minhas veias como outrora eu percorria suas ruas. De modo que sou um estrangeiro em Lisboa, e o serei para sempre. Sinto pena disto. Generosa, ela me ofereceu seus segredos, franqueou-me o estuário do seu rio. À entrada do Tejo pode-se ver o Mosteiro dos Jerônimos e suas torres góticas; à sua margem direita encontra-se a Torre de Belém, imponente como um mouro. Ambos me provocam estupor e fascinam, mas não me comovem. Comove-me antes a lembrança do coreto de minha aldeia, a praça quase vazia no final da tarde, quando o sol, oblíquo, punha um tom dourado em todas as casas, e as primeiras estrelas da noite invadiam o céu casto acima de nós.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

CAFÉ TERRACE À NOITE

Certa vez um amigo contou-me uma história curiosa. Estava bebendo com um conhecido num bar qualquer, um desses bares em cujas paredes ficam penduradas reproduções baratas de telas famosas. Comentavam, como se soubessem do que falavam, sobre as circunstâncias que cercavam cada pintura, sua técnica e modo de realização. Em certo momento, o outro observou na parede uma reprodução da tela Café Terrace à Noite, de Van Gogh. Ficou silencioso por alguns segundos e então, cheio de genuína nostalgia, apontou o dedo, dizendo: “Já estive ali”. Embora dele se pudesse dizer, com algum exagero, que praticamente nunca tivesse posto os pés fora de casa, apontava a pintura e dizia que se sentara naquela cadeira ali, aquela mais para o lado da rua, a primeira, agora vazia. Naquele lugar, com um único café sobre a mesa, um jornal dobrado sobre a perna, o nariz e os olhos inquietos, deixara-se ficar, num final de tarde de primavera, a sentir no ar o perfume das mulheres francesas, a admirar-lhes as pernas longas, quando passavam leves e louçãs, com seus vestidos florais. O café, que existe de verdade (e, diga-se de passagem, é bem menos bonito que o da pintura), fica na Praça do Fórum, em Arles, na França, e hoje é freqüentado por turistas do mundo inteiro. Pois bem. Meu amigo ouviu com ouvidos benevolentes a declaração entusiástica e, claro, considerou-a fantasiosa. Sorriu o riso dos que sabem das coisas e, discretamente, para que o outro não notasse, afastou para o lado a meia garrafa de vinho que ainda restava: não queria correr o risco de ouvir o outro dizer ter encontrado o próprio Van Gogh entretido no ato de pintar. Aliás, Van Gogh, nesse quadro, pintou pela primeira vez as estrelas como fundo de suas telas. Depois ele repetiria o procedimento nas telas Noite Estrelada Sobre o Ródano e Noite Estrelada. Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que eu prefiro acreditar que aquele conhecido do meu amigo tenha estado no Café Terrace. Para mim, é justo, é imprescindível que tenha estado. O mundo está cheio de mortos-vivos, gente que olha e não vê, que cheira e não sente, que prova e não saboreia. A meu ver, para cada um desses ingratos deveria haver um contrário perfeito, pessoas que, por artes de sonho, ou pela força do álcool, ou mesmo pelo encanto do pensamento puro, pudessem usufruir dos sons, dos cheiros e das belezas do mundo – em qualquer lugar e em qualquer tempo. O conhecido do meu amigo certamente seria um destes tipos. Fascina-me imaginar que numa noite antiga, uma noite estrelada, muito anterior ao seu nascimento, ele tenha visitado também o rio Ródano, o caudaloso Ródano, em sua turbulenta marcha rumo ao Mar Mediterrâneo. Ali, às suas margens, há de ter-se sentado distraído num banco qualquer e, sem querer, sem perceber o especial momento artístico que se desenrolava diante de seus olhos, há de ter acompanhado, sonolento, os movimentos do próprio Van Gogh debruçado sobre uma tela. Atormentado, inquieto, naquele momento o pintor transformava, com pequenas pinceladas, uma paisagem até então comum num espetáculo de cores.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

AGADIR

Eu era menino em Agadir e brincava com meus amigos numa ruela com chão de terra batida, próxima à minha casa. De pés descalços, correndo atrás de uma bola feita de trapos, tínhamos o rosto coberto de poeira e suor, e essa era toda a nossa riqueza. Então apareceu aquele homem magro, que ficou olhando para nós por alguns instantes e depois se afastou. Antes que se fosse, nos poucos segundos de atenção que lhe concedemos, vimos seu rosto seco, curtido, e seu olhar distante – como se nossa brincadeira o tivesse feito recordar algo há muito tempo esquecido. Pouco depois ele voltou, e então pude fixar seu rosto para sempre. Trazia, pendentes dos braços, pantufas, braceletes e bonecos, e começou a distribuí-los entre nós. Eu fui o primeiro a ser tocado por sua generosidade, e, enquanto ele me estendia um cavalo de madeira, tive tempo de olhá-lo nos olhos, de mergulhar neles para encontrar riquezas desconhecidas. No momento seguinte, todos os meu amigos solicitavam suas dádivas e seus olhares, e ele já não me dava atenção. Acabado o festim, ele sumiu de novo, e nunca mais o vi. Dias depois, eu soube que ele distribuiu presentes em outras ruas, que gastou como se fosse um dos senhores abastados da cidade. Mas eu não acho que fosse rico. Seus braços magros, sua roupa velha, suas costas encurvadas indicavam, ao contrário, pobreza. Não que isso importe. Naquele momento ele foi, para nós, mais do que rico: ele foi bom. Havia muitas pessoas ricas na cidade, mas isso não as fazia especiais, se é que você me entende. Agora faz muito tempo que não vivo em Agadir. A cidade cresceu, atraiu turistas e negócios, e já não guarda os traços da cidade da minha infância. O vento do Atlântico continua soprando sobre suas casas, mas agora sopra também sobre hotéis majestosos, cafés em estilo europeu e balneários que remetem ao paraíso. Meus amigos sumiram, perderam-se nas dobras do tempo e da mudança, mas acredito que eles concordariam comigo se eu lhes dissesse que toda a prosperidade de Agadir e toda a pompa de suas largas avenidas não se compara à beleza de sonho daquela rua empoeirada, naquele dia antigo em que fomos mais ricos do que jamais seríamos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

PUNTA ARENAS

Ah, viver em Punta Arenas. À tarde, nos sábados à tarde, postar-me num promontório qualquer e, de lá, receber no rosto o vento que sopra pelo Estreito. E no mês de julho, quando a temperatura é mais baixa, cobrir-me de mantas grossas e caminhar por suas ruas e visitar suas fontes, anotando pequenos milagres invisíveis à maioria da gente, como o gato que descansa indolente sobre um muro, indiferente ao frio, o rabo pendente como uma cobra. Ou, no mês de janeiro, quando a temperatura se eleva um pouco mais, vestir roupas leves e, acostumado ao que me parecerá então uma brisa de primavera, observar a faina humana de todo dia, os trabalhadores do mar, meus irmãos. Ah, em Punta Arenas eu desempenharia serviços de verdade. Não viveria de colocar letras no papel, de fazer despachos burocráticos. Em Punta Arenas eu não pensaria em dinheiro senão como em algo que me permitisse comprar o pão de cada dia. Tomaria diariamente um trago com meus companheiros, e partilharia com eles, enquanto nossa pobreza nos permitisse, o prato que nos sustentaria as forças. Contaríamos histórias, nossas e de amigos distantes. E riríamos e choraríamos, e nos sentiríamos irmãos, sem mais nada na vida senão a fé na amizade, na pobreza e na força dos elementos. E à noite eu voltaria para casa, para os braços daquela que, antes de eu a ter escolhido, a mim teria me escolhido primeiro, porque ela seria a minha senhora, minha enseada nesta costa distante e seca que é a minha cidade, ah, Punta Arenas. E quando eu morresse, velho e cansado, no meu quarto de tantos anos, com sua única janela aberta para a rua, para os vendedores com seus pregões, para as crianças que brincam na calçada, meus companheiros viriam transmitir seus sentimentos à minha viúva, e diriam a ela: “Não te preocupes, pois teus filhos estão bem criados. Têm diante de si o mar, o gelo e o vento, mas são fortes e nobres. Esta é a melhor herança que lhes deixou o pai.”