À noite, em frente à fogueira, o nômade tem os olhos fixos nas chamas. Ele pensa, mas seu pensamento é de um outro tipo. Não é o pensamento do homem ocidental, do homem da cidade, que sai para comprar o pão, que vai ao cinema, que lê jornais. Pensa na mulher e nos filhos, por exemplo. A mulher é uma sensação, um vaso úmido. É calor, são seios, é cheiro. Os filhos são braços e pernas para o trabalho do dia-a-dia. São como camelos. O pensamento do nômade é limpo e cortante como o deserto. É um bruto, dirá o homem civilizado. Engano. Ele possui uma sabedoria ancestral. Tudo o que está ao seu redor é seu bem. Sua mulher não vale mais que sua túnica, que seu camelo, que sua água. Seus filhos não são mais importantes que sua tenda, que seus víveres. É essa idéia que enrijece seus músculos, que fortalece seus ossos, que prepara seu corpo. É assim que ele contorna dunas, atravessa tempestades de areia, enfrenta noites gélidas e dias infernais. É assim que ele volta para o seu lar, ainda que transitório e passageiro. Mas que ninguém se engane: sua mulher e seus filhos também o enxergam de uma maneira muito própria. Para ela, ele é comida, areia, rugosidade e aspereza. Para os filhos ele é a mão, pesada ou leve, e dois olhos duros. Há amor nesse sistema peculiar. Amor com peso e valia, mensurável. Palpável e talvez mais real que o débil amor dos civilizados. É noite, ainda não faz tanto frio. O nômade pensa diante da fogueira. Há uma pedra ao seu lado, uma pedra na qual ele encostará a cabeça, antes de recolher-se à sua tenda. Essa pedra é o seu lar.
sábado, 11 de abril de 2009
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Um comentário:
é uma família dos cinco sentidos.
muito sutil, escrita limpa, sem toques rebuscados.
parabéns. =]
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