Eu imagino alguém percorrendo um deserto. Não estou bem certo quanto à indumentária correta: túnicas pesadas, turbante. Vejo um nômade de roupas escuras. Apenas seus olhos têm contato direto com o mundo. São olhos secos, naturalmente. Mas será que todos os povos do deserto se vestem assim? Como será a roupa dos que vivem no Deserto do Atacama? Aliás, será que alguém vive no Deserto do Atacama? Talvez as pessoas apenas o atravessem (mas para chegar aonde?). São tantas perguntas, tantas dúvidas. Eu poderia fazer uma consulta na internet. A internet tem tudo, embora não se saiba o que é verdadeiro e o que é falso na internet. O que é miragem e o que é oásis no vasto deserto que é a internet. Sei de esqueletos expostos ao sol no vasto deserto que é a internet. Gente que se perdeu ali e nunca mais saiu. Como é que se entra num deserto? Há um “começo” do deserto? Tenho a impressão de já ter ouvido algo assim nos filmes. Um nômade e um estrangeiro seguem viagem, silenciosos, sobre seus camelos. Geralmente o nômade é o cicerone mau-humorado do estrangeiro frágil e branco, europeu. O nômade, com ar determinado, fez um sinal com a mão e os dois param. De modo solene, declara: “Aqui começa o deserto”. E o deserto começa. O deserto tem um começo. E deve ter um fim. Apenas nós, homens da cidade, é que não sabemos precisá-lo. Mas volto ao Atacama. Como é que o povo se veste? Há vilas, há povoados, há choças, há gente no Atacama? Não chove nunca no Atacama. Olha-se para o céu e tudo é azul, sempre. De noite, tudo é escuro e estrelado. De manhã, o que se encontra são as gotículas esparsas da friagem noturna. Porque no Atacama tudo é muito frio à noite. Sei porque vi em documentários, mas não tenho muita certeza. Imagino os nômades do Atacama à noite, em volta da fogueira, contando histórias ancestrais. Haverá nômades no Atacama? Talvez não. Nem mesmo os desertos são iguais. Haverá quem fique ao redor de uma fogueira à noite, no Atacama? Ou não haverá ninguém? Será que à noite no Atacama tudo é poeira, estrelas, vento e negrume? Será o Atacama uma imensa solidão?
sexta-feira, 10 de abril de 2009
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