segunda-feira, 26 de maio de 2008

LONDRES

Tenho a impressão de que em Londres chove todos os dias. Mesmo nos dias em que não chove, para mim é como se chovesse. A chuva está impregnada em minha pele, que é úmida e pálida. Às vezes me canso e quero ir embora: quero ver e sentir o sol, caminhar sem capotes, sem guarda-chuva pendurado no braço ou jornal levado à cabeça (este último caso tem lugar quando a chuva me pega desprevenido, pois embora chova todos os dias, às vezes saio de casa com a ingênua esperança de que não vai chover). Gosto de Londres, e tenho muitos motivos para gostar: de mil modos diferentes já vi a chuva escorrer em intermináveis janelas, durante o dia e durante a noite; em mil diferentes intensidades, como cachoeiras violentas ou como arroios que fluem sem estardalhaço, já vi as águas caindo de infinitas bicas; desde o fechado e cinza até o translúcido como um cristal sem mácula, já vi mil diferentes matizes de horizonte. Todas estas coisas já vi, e outras: belas mulheres de vestido molhado colado ao corpo, as curvas se pronunciando sob o tecido, os músculos estremecendo com seus passos rápidos; e homens de terno e gravata, antes tão confiantes e seguros, de repente completamente ensopados, como passarinhos molhados e friorentos. Tudo isso a cidade me proporciona – e sabe proporcionar aos que crescem nela. Eu gosto de Londres, e de sua chuva que é como uma assinatura. No entanto, como um amante insatisfeito, às vezes quero deixá-la. Por quê? Nos trópicos cansarei do sol, e nos altiplanos cansarei do frio; nas estepes cansarei do horizonte, e nas planícies cansarei dos ventos. Não há lugar para onde se vá que não produza uma acomodação a princípio difícil, depois suave e gentil, e por fim cansada e rotineira. Por que mudar, então? Não sei. Uma vez, muito tempo atrás, eu estava com um amigo num bar e ele me disse a seguinte frase: nada é ou vai ser completamente conhecido. Não sei do que falávamos, se de mulheres, cidades ou amigos. Lembro-me, no entanto, de que a frase foi tão terminativa, tão peremptória, tão consistente, que não tivemos outra alternativa senão encerrar nossa conversa. Pedimos a conta e saímos para a rua. Como sempre, caía uma chuvinha fina que não demorou a nos ensopar. Enquanto andávamos reparei, como que tocado pelas palavras de meu amigo, que algumas das esquinas pelas quais passávamos nunca haviam atraído a minha atenção, e que cada uma delas tinha não apenas um traço distintivo, mas muitos: as janelas, as portas, os tijolos e as calçadas, tudo era, de uma maneira mais ou menos sutil, muito variado e singular. Pensei: se há tanto detalhe nas coisas e na vida, tanto segredo por descobrir, tanto para aprender, por que às vezes quero deixar Londres e sua chuva? Não será a mesma coisa em outro lugar, depois que eu me acomodar a ele? Sim, será. E no entanto esse desejo de partir me persegue, e essa insatisfação parece ser a essência da minha alma. Eu sei que a culpa não é da chuva. Aliás, a culpa não é de ninguém – se é que há culpa. Acho que há apenas um desejo de partir, um chamado que não se sabe de onde vem, e há a cidade que julgo (erroneamente) já conhecer, e as cidades que ainda não conheço. Só.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

OS LUGARES DA INFÂNCIA


AS REVISTAS EM QUADRINHOS


Claro que as revistas em quadrinhos – os gibis – são lugares da infância. Eu costumava lê-las na rede da varanda da minha casa, e esse ritual era especialmente bom quando estava chovendo: a chuva caindo lá fora e eu lentamente, bem len-ta-men-te, lendo a tarde toda. Mas eu também gostava de ler no meu quarto: normalmente comprava as revistas à tarde (corria pelas ruas, a mesada no bolso, ansioso para chegar à banca de revista – que, por sinal, era um lugar absolutamente sagrado) mas quase sempre esperava a noite chegar. Então me trancava e partia para outros lugares. Ia para Gotham City, para Patópolis ou para a Ciméria. Enfrentava inteligências criminosas, buscava tesouros escondidos, engalfinhava-me com selvagens neolíticos – e vencia sempre. Só voltava à realidade para dormir, e ainda assim para sonhar com a próxima saga, a próxima aventura, em qualquer um dos muitos lugares distantes que eu conhecia.

sábado, 17 de maio de 2008

UM BILHETE PARA A DISTÂNCIA

Era uma manhã fria e nevoenta, e nós havíamos atravessado razoavelmente incólumes a noite de festa e barulho. Sentados na areia, diante do mar encapelado, estávamos silenciosos. Com um suspiro, ela se voltou para mim e disse, sua voz abafada pelo barulho das ondas: “Quem já não teve vontade de partir, não é?” Não entendi e olhei para a linha do horizonte. Busquei algum navio distante, algum solitário ponto perdido na junção entre a linha do céu e do mar. Não vi nada, a não ser uma tênue faixa branca à distância – os arrecifes escondidos sob a superfície da água. Como eu não sabia o que dizer, com o olhar encorajei-a a prosseguir. Ela continuou. Disse que às vezes tinha vontade de partir – não de morrer, frisou, mas de partir. Ir para algum lugar distante, longe de tudo: longe dos telefonemas importunos, das festas às quais tinha que ir, mesmo sem vontade, longe dos perguntadores profissionais, dos chatos empedernidos, do trabalho maçante, da solidão dos finais de semana, longe da traição, da violência, das coisas que não deram certo e das que não dariam de jeito nenhum – pois ela sabia, pelo menos na vida dela, quais eram estas coisas –, longe do passado, todo e qualquer passado, bom ou ruim... E nesse ponto a interrompi: objetei que era impossível fugir do passado. Das outras coisas, sim, era possível escapar, mas não do passado. Ela me ouviu, pois fez uma expressão de assentimento, mas continuou em seu devaneio: tinha que partir deixando saudade nos outros, nos que lhe eram caros mas a magoaram. Não tinha graça partir se os outros não sentissem sua falta. Tinha que deixá-los queimando, em fogo lento, na dor viva da ausência. Eu sorri, interrompendo-a mais uma vez: “Mas isso é vingança!”. “Claro que é!”, ela concordou. Disse que quando a gente tem vontade de partir desse jeito é porque está magoada – com o mundo ou com certas pessoas –, e quer retribuir, de alguma forma, a dor que sente. “Ao mesmo tempo”, ela me disse com um sorriso triste, “a gente quer esquecer que algo em nós dói. A dor que fique só pra eles – ou para o mundo.” E aí me falou como seria bom partir para lugares distantes: uma aldeiazinha nos confins do Tibete, uma vila no sul da Itália, uma ilha no mar do Caribe, o anonimato da multidão em Hong Kong, uma cidadezinha nos andes, uma estância nos pampas, um chalé nos alpes, um oásis no Saara, uma tenda no Atacama... Livre e feliz, esquecida da dor e isolada do mundo. Era assim que ela gostaria de viver. Mas não sempre e não para sempre, ela me garantiu, talvez para não me assustar com o seu escapismo. Eu não estava assustado, porém. Na verdade concordava com ela: quem já não tinha sentido vontade de partir? Eu também já tinha sentido essa vontade louca. Mas de maneira prática, pouco poética, eu criara um método eficaz para afastar esses devaneios: eu considerava o lado prático das coisas. Ela, por exemplo, ignorava o frio, o calor, a solidão e o perigo que existiam em todos esses lugares idealizados. Eu os tinha bem presentes, e eles eram minha âncora. Mas eu conhecia o verdadeiro intuito dela, sabia que ela só queria paz, sossego e proteção, não importava onde. Olhei para ela de um modo mais intenso, mas ela não me via. Seus olhos estavam fixos no horizonte. Eu disse: “O bom seria que houvesse uma estação de trem ou algo parecido, onde a gente pudesse chegar e dizer: – Me dá um bilhete para a distância. Então o caixa escolheria, ele mesmo, o lugar para onde iria nos mandar, e esse lugar seria sempre bom, sempre seguro, sempre bonito.” Esperei sua reação a esta minha fantasia infantil, mas ela não disse nada, nem me olhou. Não me incomodei. Ela parecia ter partido.