quinta-feira, 25 de junho de 2009

UMA MANGUEIRA

Há uma mangueira no quintal. Não é o meu quintal, mas é uma mangueira, e basta. Sempre esteve ali. É grande, frondosa, e nesta época do ano todas as suas folhas estão verdes. Eu já a vira, claro, da janela do meu apartamento. Mas, como dizem os filósofos, eu ainda não a apreendera. De modo que hoje, ao chegar à janela, hoje, que o dia está meio nublado, foi que a apreendi. Primeiro vi o chão de barro, a terra molhada, escura. Então vi algumas folhas no chão, meio amareladas. E depois, enfim, vi a magnífica copa. Daqui de cima tenho uma vista privilegiada da mangueira. Não me abrigo sob sua sombra, mas contemplo esta bela e vigorosa copa. E me comovo. É tocante perceber que no meio da cidade, entre a sujeira e a poluição, afogada pelo barulho das buzinas e das máquinas, no meio da correria, existe essa coisa silenciosa e plácida, perfeitamente imóvel e pesada, e sem pressa. Um quintal, uma mangueira, terra molhada. Depois um muro, um muro daqueles antigos, que cercavam casas antigas. E depois do muro o caos, a agitação, a soberba. Dois mundos tão diferentes, separados por alguns tijolos. E, ai, minha infância! O desejo de brincar, de subir nos galhos da mangueira, sentar lá em cima, balançando as pernas. O desejo de abandonar o trabalho enfadonho, as obrigações, as ideias de adulto. Voltar à infância, despreocupadamente voltar à infância. E lá de cima, protegido, observar o incompreensível mundo dos adultos. Ah, o desejo de nunca mais descer, nunca mais descer, e chupar mangas para sempre!

2 comentários:

Roberta Rohen Mendes disse...

Olá, Luiz André. Meu nome é Roberta Rohen. Foi por acaso que encontrei, em meio à tanta leitura insossa, o seu blog. Mas não foi por acaso que me tornei "seguidora". Apaixonei-me pela sua escrita talvez, em parte, porque a minha seja um pouco parecida com a sua. Parabéns pelos seus textos. São um refresco para a alma. Se quiser conferir os meus: http://escaloalfabeticas.blogspot.com Chama-se "Expresso do Inconsciente". Quase como um Bilhete para a Distância, não é verdade? Abraço grande.

Miss P. disse...

sou amiga da Roberta aí de cima, achei vc lá no blog dela, e poutz, que textos bacanas.

como boa caipira residente na cidade grande, não resisto a textos com esse tipo de temática, como esse da mangueira.
de forma simples e direta, você elaborou uma visão bela, carregada de sentimento.
ótimo. bom de ler. =)