À noite, em frente à fogueira, o nômade tem os olhos fixos nas chamas. Ele pensa, mas seu pensamento é de um outro tipo. Não é o pensamento do homem ocidental, do homem da cidade, que sai para comprar o pão, que vai ao cinema, que lê jornais. Pensa na mulher e nos filhos, por exemplo. A mulher é uma sensação, um vaso úmido. É calor, são seios, é cheiro. Os filhos são braços e pernas para o trabalho do dia-a-dia. São como camelos. O pensamento do nômade é limpo e cortante como o deserto. É um bruto, dirá o homem civilizado. Engano. Ele possui uma sabedoria ancestral. Tudo o que está ao seu redor é seu bem. Sua mulher não vale mais que sua túnica, que seu camelo, que sua água. Seus filhos não são mais importantes que sua tenda, que seus víveres. É essa idéia que enrijece seus músculos, que fortalece seus ossos, que prepara seu corpo. É assim que ele contorna dunas, atravessa tempestades de areia, enfrenta noites gélidas e dias infernais. É assim que ele volta para o seu lar, ainda que transitório e passageiro. Mas que ninguém se engane: sua mulher e seus filhos também o enxergam de uma maneira muito própria. Para ela, ele é comida, areia, rugosidade e aspereza. Para os filhos ele é a mão, pesada ou leve, e dois olhos duros. Há amor nesse sistema peculiar. Amor com peso e valia, mensurável. Palpável e talvez mais real que o débil amor dos civilizados. É noite, ainda não faz tanto frio. O nômade pensa diante da fogueira. Há uma pedra ao seu lado, uma pedra na qual ele encostará a cabeça, antes de recolher-se à sua tenda. Essa pedra é o seu lar.
sábado, 11 de abril de 2009
sexta-feira, 10 de abril de 2009
DEVANEIO
Eu imagino alguém percorrendo um deserto. Não estou bem certo quanto à indumentária correta: túnicas pesadas, turbante. Vejo um nômade de roupas escuras. Apenas seus olhos têm contato direto com o mundo. São olhos secos, naturalmente. Mas será que todos os povos do deserto se vestem assim? Como será a roupa dos que vivem no Deserto do Atacama? Aliás, será que alguém vive no Deserto do Atacama? Talvez as pessoas apenas o atravessem (mas para chegar aonde?). São tantas perguntas, tantas dúvidas. Eu poderia fazer uma consulta na internet. A internet tem tudo, embora não se saiba o que é verdadeiro e o que é falso na internet. O que é miragem e o que é oásis no vasto deserto que é a internet. Sei de esqueletos expostos ao sol no vasto deserto que é a internet. Gente que se perdeu ali e nunca mais saiu. Como é que se entra num deserto? Há um “começo” do deserto? Tenho a impressão de já ter ouvido algo assim nos filmes. Um nômade e um estrangeiro seguem viagem, silenciosos, sobre seus camelos. Geralmente o nômade é o cicerone mau-humorado do estrangeiro frágil e branco, europeu. O nômade, com ar determinado, fez um sinal com a mão e os dois param. De modo solene, declara: “Aqui começa o deserto”. E o deserto começa. O deserto tem um começo. E deve ter um fim. Apenas nós, homens da cidade, é que não sabemos precisá-lo. Mas volto ao Atacama. Como é que o povo se veste? Há vilas, há povoados, há choças, há gente no Atacama? Não chove nunca no Atacama. Olha-se para o céu e tudo é azul, sempre. De noite, tudo é escuro e estrelado. De manhã, o que se encontra são as gotículas esparsas da friagem noturna. Porque no Atacama tudo é muito frio à noite. Sei porque vi em documentários, mas não tenho muita certeza. Imagino os nômades do Atacama à noite, em volta da fogueira, contando histórias ancestrais. Haverá nômades no Atacama? Talvez não. Nem mesmo os desertos são iguais. Haverá quem fique ao redor de uma fogueira à noite, no Atacama? Ou não haverá ninguém? Será que à noite no Atacama tudo é poeira, estrelas, vento e negrume? Será o Atacama uma imensa solidão?