quinta-feira, 25 de junho de 2009

UMA MANGUEIRA

Há uma mangueira no quintal. Não é o meu quintal, mas é uma mangueira, e basta. Sempre esteve ali. É grande, frondosa, e nesta época do ano todas as suas folhas estão verdes. Eu já a vira, claro, da janela do meu apartamento. Mas, como dizem os filósofos, eu ainda não a apreendera. De modo que hoje, ao chegar à janela, hoje, que o dia está meio nublado, foi que a apreendi. Primeiro vi o chão de barro, a terra molhada, escura. Então vi algumas folhas no chão, meio amareladas. E depois, enfim, vi a magnífica copa. Daqui de cima tenho uma vista privilegiada da mangueira. Não me abrigo sob sua sombra, mas contemplo esta bela e vigorosa copa. E me comovo. É tocante perceber que no meio da cidade, entre a sujeira e a poluição, afogada pelo barulho das buzinas e das máquinas, no meio da correria, existe essa coisa silenciosa e plácida, perfeitamente imóvel e pesada, e sem pressa. Um quintal, uma mangueira, terra molhada. Depois um muro, um muro daqueles antigos, que cercavam casas antigas. E depois do muro o caos, a agitação, a soberba. Dois mundos tão diferentes, separados por alguns tijolos. E, ai, minha infância! O desejo de brincar, de subir nos galhos da mangueira, sentar lá em cima, balançando as pernas. O desejo de abandonar o trabalho enfadonho, as obrigações, as ideias de adulto. Voltar à infância, despreocupadamente voltar à infância. E lá de cima, protegido, observar o incompreensível mundo dos adultos. Ah, o desejo de nunca mais descer, nunca mais descer, e chupar mangas para sempre!

sábado, 11 de abril de 2009

NO DESERTO

À noite, em frente à fogueira, o nômade tem os olhos fixos nas chamas. Ele pensa, mas seu pensamento é de um outro tipo. Não é o pensamento do homem ocidental, do homem da cidade, que sai para comprar o pão, que vai ao cinema, que lê jornais. Pensa na mulher e nos filhos, por exemplo. A mulher é uma sensação, um vaso úmido. É calor, são seios, é cheiro. Os filhos são braços e pernas para o trabalho do dia-a-dia. São como camelos. O pensamento do nômade é limpo e cortante como o deserto. É um bruto, dirá o homem civilizado. Engano. Ele possui uma sabedoria ancestral. Tudo o que está ao seu redor é seu bem. Sua mulher não vale mais que sua túnica, que seu camelo, que sua água. Seus filhos não são mais importantes que sua tenda, que seus víveres. É essa idéia que enrijece seus músculos, que fortalece seus ossos, que prepara seu corpo. É assim que ele contorna dunas, atravessa tempestades de areia, enfrenta noites gélidas e dias infernais. É assim que ele volta para o seu lar, ainda que transitório e passageiro. Mas que ninguém se engane: sua mulher e seus filhos também o enxergam de uma maneira muito própria. Para ela, ele é comida, areia, rugosidade e aspereza. Para os filhos ele é a mão, pesada ou leve, e dois olhos duros. Há amor nesse sistema peculiar. Amor com peso e valia, mensurável. Palpável e talvez mais real que o débil amor dos civilizados. É noite, ainda não faz tanto frio. O nômade pensa diante da fogueira. Há uma pedra ao seu lado, uma pedra na qual ele encostará a cabeça, antes de recolher-se à sua tenda. Essa pedra é o seu lar.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

DEVANEIO

Eu imagino alguém percorrendo um deserto. Não estou bem certo quanto à indumentária correta: túnicas pesadas, turbante. Vejo um nômade de roupas escuras. Apenas seus olhos têm contato direto com o mundo. São olhos secos, naturalmente. Mas será que todos os povos do deserto se vestem assim? Como será a roupa dos que vivem no Deserto do Atacama? Aliás, será que alguém vive no Deserto do Atacama? Talvez as pessoas apenas o atravessem (mas para chegar aonde?). São tantas perguntas, tantas dúvidas. Eu poderia fazer uma consulta na internet. A internet tem tudo, embora não se saiba o que é verdadeiro e o que é falso na internet. O que é miragem e o que é oásis no vasto deserto que é a internet. Sei de esqueletos expostos ao sol no vasto deserto que é a internet. Gente que se perdeu ali e nunca mais saiu. Como é que se entra num deserto? Há um “começo” do deserto? Tenho a impressão de já ter ouvido algo assim nos filmes. Um nômade e um estrangeiro seguem viagem, silenciosos, sobre seus camelos. Geralmente o nômade é o cicerone mau-humorado do estrangeiro frágil e branco, europeu. O nômade, com ar determinado, fez um sinal com a mão e os dois param. De modo solene, declara: “Aqui começa o deserto”. E o deserto começa. O deserto tem um começo. E deve ter um fim. Apenas nós, homens da cidade, é que não sabemos precisá-lo. Mas volto ao Atacama. Como é que o povo se veste? Há vilas, há povoados, há choças, há gente no Atacama? Não chove nunca no Atacama. Olha-se para o céu e tudo é azul, sempre. De noite, tudo é escuro e estrelado. De manhã, o que se encontra são as gotículas esparsas da friagem noturna. Porque no Atacama tudo é muito frio à noite. Sei porque vi em documentários, mas não tenho muita certeza. Imagino os nômades do Atacama à noite, em volta da fogueira, contando histórias ancestrais. Haverá nômades no Atacama? Talvez não. Nem mesmo os desertos são iguais. Haverá quem fique ao redor de uma fogueira à noite, no Atacama? Ou não haverá ninguém? Será que à noite no Atacama tudo é poeira, estrelas, vento e negrume? Será o Atacama uma imensa solidão?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

AINDA NÃO

Ainda não tenho nada minimamente decente para dizer. Por isso resolvo dizer qualquer coisa. Por exemplo: faz tempo que não chove de verdade por aqui. Deu uma chuvinha ontem – isto é, passou uma manhã chovendo. Depois parou. Enquanto isso está chovendo tanto em outros lugares... Não, não quero a chuva que derruba casas e encostas, que alaga ruas, que atrapalha o trânsito. Quero apenas aquela chuvinha boa, meio leve, que permite que o sujeito pare um instante na rua (ou mesmo em casa, olhando pela janela) para pensar um pouco na vida. Por falar nisso, sabe uma coisa que acho bonita? Chuva no final de tarde, quando as luzes da cidade começam a se acender. E você?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

É NISSO QUE DÁ

Sim, é nisso que dá ser exigente demais consigo mesmo. Eu sou assim: ou escrevo algo que considero relativamente decente (para mim, apenas para mim) ou não escrevo nada. Como durante todo esse tempo eu não tinha nada relativamente decente para dizer, calei-me. É nisso que dá. Acabei perdendo, talvez para sempre, o meu único leitor (ou leitora) regular. É alguém de Viçosa – aqui, interior de Alagoas. Alagoano como eu. Sei disso por causa do Google Analytics, que me mostra a origem dos que entram (ou melhor, da única pessoa que entrava) no meu blog. Agora estou aqui, escrevendo para ninguém. E o que é pior: sem algo relativamente decente para dizer. É nisso que dá.

sábado, 3 de janeiro de 2009

A ARTE

A arte tem dessas coisas. Fui ao cinema com um amigo ver Romance, do Guel Arraes. Gostei. É um filme dentro de um filme. Minto. Uma peça dentro de um filme, ou uma vida dentro de uma peça, e o filme mostrando as duas coisas. Como eu disse, a arte tem dessas coisas. Com ela a gente (ou quem sabe fazê-la) mostra a vida e a arte ao mesmo tempo, talvez porque as duas sejam uma coisa só, ou melhor: talvez porque a arte mostre a vida, mesmo que nós não a reconheçamos e que a tomemos por ficção. No caso do filme, a gente sai do cinema pensando em como deve ter sido bom trabalhar nele. Bem. O que eu queria dizer era precisamente isto: o prazer da criação estética deve ser o mesmo, não importa se no cinema, na música, na pintura ou na literatura. Criar uma obra de arte, já disseram alguns, é atuar como um deus. O criador é um demiurgo – e o ato da criação, no final das contas, é uma experiência quase religiosa.