sexta-feira, 6 de junho de 2008

MINAS GERAIS


(Para ter vontade de ir para Minas, ouça Itamarandiba, de Milton Nascimento e Fernando Brant.)


Um amigo me diz que sempre quis se mudar e que Belo Horizonte poderia ser uma opção. Penso um instante na idéia e concordo com ele. Não que eu sempre tenha querido me mudar. Eu quis algumas vezes, e às vezes quero, mas não sempre. Mas concordo com ele quanto ao fato de que Belo Horizonte pode ser uma bela opção. Quando me falam em Belo Horizonte, a primeira coisa que me vem à mente são montes, colinas e morros, ou, como diz Fernando Pessoa, outeiros (“E vejo um recorte de mim/No cimo dum outeiro”). (Recentemente visitei Belo Horizonte, e posso juntar aos substantivos acima, no meu imaginário, as ladeiras. Pois Belo Horizonte é fundamentalmente suas ladeiras.) Por outro lado, é certo que morros, colinas e outeiros não remetem precisamente a Belo Horizonte, mas a Minas. É que na minha mente litorânea não há como dissociar os dois lugares. Talvez o meu amigo estivesse se referindo a Minas e não a Belo Horizonte. Não sei. Ou talvez ele quisesse mesmo ficar na capital, onde poderia ter uma vida pacata e ao mesmo tempo cosmopolita. O que sei é que Minas também é uma excelente opção. Ouro Preto, São João Del Rei, Curvelo, Montes Claros, Cordisburgo, Itabira. Cada uma dessas cidades (mas não apenas elas) tem uma história especial: em Itabira, por exemplo, nasceu Carlos Drummond de Andrade; em Cordisburgo nasceu Guimarães Rosa; em Ouro Preto viveram e fomentaram a subversão os poetas inconfidentes. E em Belo Horizonte, claro, viveram Milton Nascimento, Tavinho Moura, Wagner Tiso e Fernando Brant, os criadores do Clube da Esquina. Na verdade, parece que qualquer cidade, ou melhor, qualquer lugar de Minas é bom pra se morar. Por que não viver em Alfenas, ou em Campo Belo? Ou em Itamarandiba? (“Itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida.”) Ou em Turmalina? ("No caminho dessa cidade passarás por Turmalina”) Ou em Pedra Azul, ou em Diamantina? (“Sonharás com Pedra Azul, viverás em Diamantina”). Até no Vão do Buraco, ao norte da Serra das Araras, ao sul do Rio Carinhanha, deve ser bom de se viver. Mas sei que o desejo de partir, que ninguém explica direito mas que todo mundo sente, cria uma espécie de miragem: todos os lugares parecem bonitos e bons de se morar. Ah, uma esquina molhada de chuva em Belo Horizonte, naqueles dias de vento e frio; ah, um pôr do sol em Montes Claros, o céu cheio de laranja e amarelo e vermelho! Tudo é tão bonito, tão irreal. Mas acho, verdadeiramente, que morar em Belo Horizonte ou em Minas é uma boa idéia. Se um dia eu quiser criar cabras, ou plantar uma horta modesta e digna (e considero estas ocupações verdadeiramente nobres), considerarei Minas, seus morros, suas colinas, seus outeiros e suas ladeiras.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

OS LUGARES DA INFÂNCIA



O BILACÃO


Era um fervedouro de facínoras. Acho que foi lá que entrei em contato com a malandragem humana pela primeira vez. Foi lá que descobri que, se queria viver no mundo, tinha que ser esperto. Pois bem, o Bilacão era um campinho de terra batida que ficava na rua Olavo Bilac, perpendicular à Pedro Correia, onde eu morava. Comecei a freqüentá-lo quando tinha uns doze anos, louco para jogar bola, e me deparei com uma variada fauna de malandros, todos mais velhos que eu. Foi no Bilacão, para citar apenas um exemplo, que vim a conhecer aquele deslocamento tão comum, aquele toque de ombros tão doce, tão inocente, que um jogador dá no outro quando estão lado a lado – o chamado “encosto”. Foi assim: eu conduzia a bola em desabalada carreira pela lateral direita, pronto para fazer um cruzamento; com o rabo do olho, vi quando um dos facínoras se aproximou de mim, pela minha esquerda. Imediatamente suspeitei de algo. Então o dito-cujo emparelhou comigo e, singelamente, como se não quisesse nada, encostou seu ombro ao meu, fazendo um leve movimento para a frente. Fui lançado, sem bola e aos tropeções, para a linha lateral. De imediato, furibundo mas triunfante, gritei: “Falta!”. Os outros jogadores, inclusive os do meu time, me olharam como se estivessem vendo um animal pré-histórico – e não disseram nada. Como ainda havia alguma humanidade no mundo, o próprio facínora que tinha me deslocado tratou de iluminar a minha ignorância. Parou, o pé sobre a bola, e explicou: “Falta? Tá doido?! Isso foi um encosto!” Falou como se fosse a coisa mais banal do mundo. Então voltou-se para a frente, para o seu campo de ataque, e fez um lançamento primoroso.